31 de julho de 2026 - Um pó preparado com folhas secas, administrado por via nasal para aliviar a cefaleia. Foi essa a novidade que o diplomata francês Jean Nicot enviou de Lisboa, em 1560, a Catarina de Médici, mãe do rei Francisco II, para tratar suas recorrentes crises de migrânea. O tabaco, recém-chegado da América, ganhou prestígio na Europa, apelidado de “erva-da-rainha”, dando início a uma trajetória que transformou o remédio na principal epidemia evitável da história.
Em homenagem a Nicot, o gênero botânico da planta de tabaco passou a se chamar Nicotiana. Séculos depois, quando os químicos Wilhelm Heinrich Posselt e Karl Ludwig Reimann isolaram seu principal alcaloide, em 1828, o chamaram de nicotina. A substância associada ao tabagismo carrega o nome de quem a apresentou ao mundo como remédio.
A novidade do francês era antiga conhecida neste lado do Atlântico. A América do Sul concentra a maior diversidade do gênero Nicotiana e é considerada seu principal centro de origem, com evidências de uso humano que remontam a 12.300 anos atrás. A espécie mais cultivada, a Nicotiana tabacum, tem origem nas regiões que hoje correspondem à Bolívia e ao Peru, a partir de onde se disseminou pelo continente.
Quando os europeus chegaram, encontraram o tabaco integrado ao cotidiano de praticamente todos os povos indígenas. Era fumado, mascado, aspirado ou utilizado em infusões, desempenhando papel central nas práticas de cura, nos rituais religiosos e na organização social. Na América portuguesa, cronistas do século XVI registraram esses usos com detalhes. No seu Tratado descritivo do Brasil em 1587, Gabriel Soares de Sousa relata que os colonos aprenderam com os indígenas a utilizar o petume — ou erva-santa em Portugal — para tratar chagas e eliminar larvas em feridas. Jean de Léry, que viveu entre os tupinambá na região da Baía de Guanabara, registrou que os indígenas nunca se encontravam sem o charuto de tabaco. O jesuíta Fernão Cardim foi mais direto: segundo ele, tanto nativos quanto portugueses eram completamente perdidos pela erva, passando "todo o dia e a noite deitados nas redes a beber fumo".
Os usos medicinais documentados incluíam analgesia em casos de dor de dente e artralgia, ação antiparasitária em feridas, antissepsia, aplicação como repelente de insetos e consumo para suprimir fome e sede em longas jornadas. O que os europeus registravam como ritual tinha, em muitos casos, base farmacológica real. A ciência levaria séculos para entender o que esses povos já sabiam.
A revolução industrial do tabaco
Na Europa, porém, o tabaco chegou como produto de luxo. Por décadas, o consumo permaneceu limitado pela escassez da planta e pelo preparo artesanal. Isso mudou em 1881, quando o estadunidense James Bonsack patenteou uma máquina capaz de produzir cerca de 120 mil cigarros por dia, aproximadamente 13 vezes mais do que um trabalhador conseguia enrolar no mesmo período. A inovação reduziu drasticamente os custos de produção. Nas décadas seguintes, publicidade agressiva, distribuição de cigarros a soldados durante as duas guerras mundiais e campanhas que associavam o hábito à modernidade consolidaram um mercado global. O cigarro industrializado não era apenas mais barato e acessível — era também o modo de uso mais eficiente já criado para uma substância que atua no sistema de recompensa do cérebro.
Após cada tragada, a nicotina alcança o cérebro em poucos segundos e se liga aos receptores nicotínicos de acetilcolina, estruturas que participam de funções como atenção, aprendizagem, memória e controle motor. Ao ativá-los, a substância desencadeia a liberação de dopamina no sistema de recompensa cerebral, o mesmo circuito envolvido no reforço de comportamentos essenciais para a sobrevivência, como comer e beber. Com a exposição repetida, o cérebro se adapta. São necessários, então, níveis cada vez maiores de nicotina para produzir o mesmo efeito, enquanto a interrupção do consumo passa a desencadear irritabilidade, ansiedade, dificuldade de concentração e fissura intensa. "A dependência resulta de adaptações neurobiológicas que tornam extremamente difícil interromper o consumo, mesmo quando a pessoa conhece todos os riscos associados ao cigarro", afirma a toxicologista Dra. Ingrid Dragan Taricano.
O impacto desse processo foi devastador. Estima-se que o tabagismo tenha causado cerca de 100 milhões de mortes ao longo do século XX e continue sendo responsável por mais de 7 milhões de óbitos por ano em todo o mundo. Mesmo quando recebem o tratamento considerado mais eficaz, que inclui associação entre medicamentos para cessação e apoio comportamental, apenas cerca de um em cada quatro tabagistas permanece abstinente após um ano.
"A fumaça entra pelas vias respiratórias superiores e alcança os pulmões. Dali, muitos desses compostos atravessam a barreira pulmonar, entram na circulação e são distribuídos para praticamente todo o organismo. Parte deles é metabolizada no fígado, outra permanece circulando por diferentes tecidos, o que amplia o potencial de exposição de vários órgãos aos agentes carcinogênicos", explica o oncologista Dr. Helano Freitas, líder do Centro de Referência em Tumores de Pulmão e Tórax do A.C.Camargo Cancer Center. Esse mecanismo explica a associação do tabagismo não apenas com o câncer de pulmão, mas também com tumores de boca, faringe, laringe, esôfago, pâncreas, rim e bexiga.
A frase que mudou as perguntas científicas
Em 1976, o psiquiatra britânico Dr. Michael Russell resumiu décadas de observações clínicas em uma frase que continua sendo citada meio século depois: "As pessoas fumam pela nicotina, mas morrem pelo alcatrão".
A afirmação não pretendia absolver o cigarro. Ela chamava a atenção para algo que começava a emergir na literatura científica: a dependência e as principais doenças relacionadas ao tabagismo não decorrem do mesmo mecanismo biológico. Enquanto a nicotina é a principal responsável por reforçar o comportamento tabagista, a fumaça gerada pela combustão do tabaco concentra milhares de substâncias químicas, entre elas alcatrão, monóxido de carbono e dezenas de compostos carcinogênicos, que respondem pela maior parte dos danos cardiovasculares, respiratórios e oncológicos associados ao cigarro.
"Russell foi um dos primeiros pesquisadores a formular essa distinção de maneira clara. Ela mudou a forma como a comunidade científica pensava a dependência do tabaco e abriu caminho para o desenvolvimento das terapias de reposição de nicotina", afirma o Dr. Konstantinos Farsalinos, médico e pesquisador especializado no tema.
Se fosse possível fornecer nicotina sem expor o tabagista aos produtos da combustão, talvez fosse possível reduzir o sofrimento causado pela abstinência. Ao separar a molécula de nicotina da fumaça do cigarro, Dr. Michael Russell abriu caminho para o estudo da substância isolada e, assim, para a possibilidade de transformar em evidência científica parte do que os povos indígenas das Américas já conheciam por observação empírica há milênios.
Entre o empírico e as evidências
Relatos históricos mostram que diferentes povos utilizavam o tabaco para aliviar dor de dente, cefaleia e artralgia. Durante muito tempo, essas descrições permaneceram apenas como registros etnográficos. Nas últimas décadas, porém, estudos em humanos demonstraram que a administração aguda de nicotina produz efeito analgésico mensurável, aumentando o limiar e a tolerância à dor, resultado confirmado em 2023. O fenômeno decorre da ativação de receptores nicotínicos de acetilcolina no sistema nervoso e da modulação de mecanismos inflamatórios em processos que envolvem o receptor α7 nicotínico de acetilcolina.
Jean de Léry registrou no século XVI que alguns indígenas permaneciam longos períodos sem se alimentar após utilizar tabaco. O relato parecia exagerado para muitos historiadores, mas em 2011 pesquisadores publicaram na Science o mecanismo exato: a nicotina ativa neurônios POMC no hipotálamo, região responsável pela regulação da saciedade, desencadeando vias neurais que reduzem a necessidade de ingestão alimentar.
Quanto ao alívio das crises migranosas de Catarina de Médici, as pesquisas são incertas. Uma revisão publicada no Headache Journal em 2015 concluiu que a nicotina é fator desencadeante de cefaleia e deve ser evitada em programas de tratamento da migrânea. Outros estudos relatam efeito oposto: melhora de cefaleia após uso agudo da substância, com mecanismo proposto de vasoconstrição. A ambiguidade persiste sem resolução, e a primeira indicação medicinal que deu nome à molécula continua sendo, quase 500 anos depois, a menos compreendida.
Os indígenas também esfregavam folhas de tabaco na pele e fumegavam os arredores para afastar insetos e eliminar potenciais parasitas. Essa propriedade fez da nicotina um dos primeiros inseticidas orgânicos sistematicamente usados na agricultura moderna, amplamente utilizado na horticultura europeia até ser banido no início do século XXI por toxicidade a abelhas. Hoje, os neonicotinoides, a classe de inseticidas mais usada no planeta, são seus derivados sintéticos, desenvolvidos para manter a eficácia, mas com menor toxicidade para mamíferos.
"Quando analisamos a nicotina isoladamente, percebemos que ela tem efeitos farmacológicos próprios, alguns deles conhecidos há décadas pela farmacologia experimental. Isso não significa que o cigarro seja um medicamento, mas ajuda a entender por que a molécula desperta tanto interesse científico", explica o Dr. Bernhard-Michael Mayer, farmacologista e toxicologista da Universidade de Graz, na Áustria.
A descoberta de que os receptores nicotínicos de acetilcolina estão presentes em diferentes tecidos do organismo ampliou os horizontes da pesquisa. Pesquisadores passaram a se perguntar o que acontece quando esses receptores são ativados em contextos muito além da dependência.
Uma das primeiras pistas surgiu da epidemiologia. Estudos mostram há décadas que grupos de tabagistas apresentam menor incidência de doença de Parkinson do que pessoas que nunca fumaram. A associação despertou interesse, porque a nicotina pode modular receptores envolvidos na sobrevivência de neurônios dopaminérgicos e influenciar vias relacionadas à neuroinflamação. Plausibilidade biológica, porém, não é sinônimo de eficácia clínica. Os ensaios clínicos não demonstraram benefício consistente da nicotina na prevenção nem no tratamento da doença.
A pesquisa sobre o declínio cognitivo seguiu caminho semelhante. Em 2012, um estudo-piloto com 74 pessoas com comprometimento cognitivo leve mostrou melhora em testes de atenção e memória após seis meses de uso de adesivos transdérmicos de nicotina. O resultado motivou o estudo MIND, financiado pelo National Institutes of Health (NIH) dos Estados Unidos. Durante dois anos, participantes utilizaram adesivos de nicotina com dose titulada até 21 mg por dia. Em dezembro de 2025, os pesquisadores divulgaram os resultados: em comparação com o placebo, o tratamento não retardou a perda de memória nem a progressão do comprometimento cognitivo.
Um estudo publicado recentemente no Nicotine & Tobacco Research mostrou que o uso de nicotina aumentou a memória de trabalho e os níveis plasmáticos de BDNF em humanos. A distinção é clinicamente relevante: a nicotina produz efeito cognitivo real no curto prazo, mas esse efeito não se traduz em proteção contra o declínio progressivo característico do comprometimento cognitivo leve.
Na colite ulcerativa, a observação de partida foi clínica: tabagistas têm menor risco de apresentar a doença, e alguns pacientes relatam piora dos sintomas após interromper o tabagismo. Um dos mecanismos propostos envolve a via colinérgica anti-inflamatória: a ativação do receptor nicotínico α7 reduz a produção de citocinas pró-inflamatórias, como TNF-α e IL-1β. Ensaios clínicos com adesivos transdérmicos observaram melhora em parte dos pacientes com doença ativa leve a moderada, mas os resultados foram heterogêneos e os efeitos adversos, frequentes. A nicotina não integra o tratamento recomendado nas diretrizes atuais.
Pesquisadores levantaram a hipótese de que a proteína spike do SARS-CoV-2 interagiria com receptores nicotínicos de acetilcolina, especialmente o subtipo α7, contribuindo para a neuroinflamação observada na covid-19 longa. Pequenos estudos clínicos passaram a avaliar o uso de adesivos transdérmicos nesses pacientes, mas até o momento não há evidências clínicas robustas de benefício.
"O fato de uma molécula apresentar efeitos biológicos interessantes não significa que ela se tornará um medicamento. Entre identificar um mecanismo e demonstrar benefício clínico existe um caminho longo que depende de estudos cuidadosamente conduzidos", explica a Dra. Ingrid.
Nada inocente
Em sua 11ª edição, a Classificação Internacional de Doenças (CID-11) abandonou o termo "dependência de tabaco" para adotar uma denominação mais precisa: dependência de nicotina. A mudança reconhece que a substância é o centro do problema — e não a planta.
Os efeitos cardiovasculares imediatos são reais. Ao estimular o sistema nervoso simpático, a nicotina promove a liberação de norepinefrina, aumenta a frequência cardíaca, eleva a pressão arterial e provoca vasoconstrição, efeitos que costumam durar cerca de 20 minutos após cada exposição. A situação muda quando se analisam formas de administração contínua, como a terapia de reposição de nicotina. Embora provoque elevação transitória da frequência cardíaca e da pressão arterial, as evidências não demonstraram aumento de complicações cardiovasculares graves com a terapia de reposição, mesmo em pacientes com doença coronariana estável. O risco cardiovascular depende da forma de exposição, da dose e do contexto clínico.
0Em oncologia, talvez nenhuma confusão seja tão frequente. Até o momento, não há evidências de que a nicotina seja carcinogênica em seres humanos. A molécula não figura entre os agentes classificados como carcinogênicos pela International Agency for Research on Cancer (IARC), que atribui o aumento do risco de câncer ao tabagismo, à fumaça do tabaco e aos compostos gerados durante a combustão, e não à nicotina isoladamente.
O Dr. Helano chama a atenção para um mecanismo menos conhecido. A nicotina reduz o tônus do esfíncter entre o esôfago e o estômago, favorecendo episódios repetidos de refluxo gastroesofágico. Essa agressão crônica à mucosa esofágica pode contribuir para o surgimento de a,denocarcinoma de esôfago, tumor cuja incidência tem crescido nas últimas décadas.
Estudos pré-clínicos sugerem que a nicotina pode interferir em processos relacionados à progressão de tumores já estabelecidos, como proliferação celular, angiogênese e resistência à apoptose. Até o momento, porém, esses achados não se traduziram em evidências clínicas consistentes. "Não existem evidências clínicas robustas que justifiquem contraindicar a terapia de reposição de nicotina para pacientes que precisam parar de fumar durante o tratamento do câncer", afirma o cirurgião oncológico Dr. Edgard Mesquita, do corpo clínico dos hospitais Sírio-Libanês e Albert Einstein, em São Paulo.
Como tratar a dependência de nicotina
A terapia de reposição de nicotina continua sendo uma das principais estratégias disponíveis. Adesivos, gomas, pastilhas, sprays nasais e inaladores fornecem a molécula sem expor o paciente aos produtos tóxicos da combustão do tabaco.
Um dos erros mais comuns na prática clínica é prescrever apenas uma formulação. As diretrizes recomendam, para muitos pacientes, a terapia combinada: um adesivo de liberação prolongada para manter níveis basais associado a uma formulação de ação rápida, como goma ou pastilha, para controlar episódios de fissura. Em comparação com a monoterapia, essa estratégia aumenta as taxas de cessação. Outro problema frequente é a orientação insuficiente: bebidas e alimentos ácidos, entre eles o café, reduzem a absorção da nicotina pela goma, comprometendo o tratamento.
Entre os medicamentos disponíveis, a vareniclina permanece como a opção isolada mais eficaz. Agonista parcial dos receptores nicotínicos α4β2, ela reduz os sintomas de abstinência e diminui o efeito recompensador do cigarro. Sua trajetória, porém, inclui um capítulo de estigmatização injusta. Em 2009, a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA incluiu na embalagem do medicamento um alerta para possíveis eventos neuropsiquiátricos graves, como transtorno depressivo e ideação suicida. Com isso, a prescrição caiu drasticamente.
O cenário mudou em 2016, após a publicação do estudo EAGLES, o maior ensaio clínico já realizado para avaliar a segurança neuropsiquiátrica dos medicamentos para cessação do tabagismo. Com mais de 8 mil participantes, incluindo pacientes com doença psiquiátrica estável, o estudo mostrou que a incidência de eventos neuropsiquiátricos graves no grupo que usou vareniclina não foi significativamente maior do que com placebo. A FDA retirou o alerta no mesmo ano.
Os pesquisadores observaram ainda que pacientes com transtornos psiquiátricos apresentaram maior frequência de eventos adversos em todos os grupos avaliados, inclusive entre os que receberam placebo, sugerindo que parte desse risco estava relacionada à própria doença de base e ao processo de abstinência. Hoje, a vareniclina é considerada opção segura para pacientes com doença psiquiátrica estável, desde que acompanhados adequadamente. Seus efeitos adversos mais comuns continuam sendo náuseas, frequentemente minimizadas quando o medicamento é ingerido após as refeições, além de insônia e sonhos vívidos.
Para pacientes com maior dependência, a combinação vareniclina + reposição de nicotina mostrou eficácia superior a qualquer monoterapia em metanálise publicada em 2025. O custo é um perfil de efeitos adversos ligeiramente maior: náuseas, reações cutâneas e alterações do sono são mais frequentes na combinação do que em qualquer monoterapia.
A vareniclina mostrou em abril de 2025 outro resultado relevante. Um ensaio clínico randomizado publicado no JAMA testou o medicamento especificamente para tratar dependência de vape em jovens e adultos jovens. Os resultados mostraram abstinência de 51% no grupo vareniclina versus 14% no placebo em 12 semanas. É o primeiro dado robusto de eficácia de farmacoterapia para cessação do uso de vape. No entanto, mesmo com o melhor arsenal disponível, três em cada quatro pacientes não conseguem parar.
Sem combustão
Se o que mata é a fumaça, e não a nicotina, seria possível reduzir os danos desse uso administrando nicotina inalada mas sem a combustão do tabaco?
Foi essa lógica que sustentou o desenvolvimento dos dispositivos eletrônicos para fumar. Sem combustão, deixam de ser produzidos monóxido de carbono, hidrocarbonetos policíclicos aromáticos e boa parte dos compostos reconhecidamente carcinogênicos presentes na fumaça do cigarro convencional.
Os resultados, porém, mostram um cenário menos linear do que se imaginava. Um estudo publicado em 2025 no JAMA Network Open, que analisou dados de mais de 6 mil tabagistas norte-americanos com ajuste rigoroso para fatores de confusão, encontrou que o uso de vape estava associado a taxas de cessação significativamente menores do que entre fumantes que não vapavam. Tanto usuários diários quanto ocasionais apresentaram menor probabilidade de abandonar completamente o cigarro, sugerindo manutenção da dependência de nicotina.
Os dispositivos atuais utilizam, em sua maioria, sais de nicotina que fornecem concentrações elevadas da substância com menor irritação das vias respiratórias. "Muitos desses dispositivos entregam uma concentração de nicotina superior à de um maço inteiro de cigarros comuns", afirma a pneumologista Dra. Maria Cecília Maiorano, doutora pela Universidade de São Paulo (USP).
Dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas mostram que o uso dual é frequente entre usuários de cigarros eletrônicos, mantendo a exposição aos produtos da combustão enquanto aumenta a carga total de nicotina. "O vape não funciona como estratégia de cessação", afirma a psicóloga Dra. Clarice Sandi Madruga, doutora e pós-doutora em psiquiatria e psicologia médica pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com colaboração no King's College London. O Reino Unido, frequentemente citado como referência em políticas de redução de danos, endureceu recentemente sua regulamentação após o crescimento expressivo do uso entre adolescentes.
No Brasil, a discussão regulatória avança. Em junho deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) iniciou consulta pública sobre produtos fumígenos à base de nicotina, como bolsas e sachês que liberam a substância pela mucosa oral sem combustão e sem tabaco, refletindo o crescimento do interesse pelo tema no país.
Estudos de longo prazo começam a preencher parte da lacuna de evidências. Uma análise longitudinal da Johns Hopkins Medicine, nos EUA, publicada em 2025 com quase quatro anos de acompanhamento, mostrou que o uso exclusivo de cigarros eletrônicos está associado ao surgimento de doença pulmonar obstrutiva crônica e, possivelmente, hipertensão. Não foram encontradas associações com complicações cardiovasculares graves no período estudado, mas os autores alertam que o acompanhamento ainda é insuficiente para conclusões definitivas. Uma revisão sistemática publicada no Tobacco Control reforça que o uso prolongado do vape pode exigir tratamento específico: intervenções farmacológicas, aconselhamento e estratégias educacionais aumentam as taxas de abandono do dispositivo.
A questão não se encerra aí. A revisão Cochrane mais recente, publicada em 2025, encontrou evidência de alta certeza de que cigarros eletrônicos ajudam fumantes a abandonar o cigarro com mais frequência do que a terapia de reposição de nicotina convencional. Em números absolutos: se seis em cada 100 pessoas param de fumar com TRN, entre oito e doze param com cigarros eletrônicos com nicotina.
Em um cenário estritamente controlado, a substituição completa do cigarro convencional por um dispositivo eletrônico de boa qualidade, com líquido padronizado, concentração conhecida de nicotina e ausência de contaminantes, tende a reduzir a exposição aos produtos tóxicos gerados pela combustão do tabaco. "Nessas condições, é possível dizer que o cigarro eletrônico provavelmente oferece menos riscos do que continuar fumando cigarros convencionais", afirma a pneumologista Dra. Maria Cecília Maiorano, doutora pela Universidade de São Paulo.
A especialista ressalta, porém, que esse cenário raramente corresponde ao uso observado na prática. Dispositivos e líquidos apresentam grande variabilidade de qualidade e composição, muitos produtos circulam sem fiscalização adequada e fatores como potência do aparelho, temperatura de aquecimento, tipo de líquido e padrão de uso modificam a quantidade de substâncias potencialmente tóxicas inaladas. Além disso, o uso dual permanece frequente, mantendo a exposição aos produtos da combustão e reduzindo ou anulando qualquer benefício potencial da redução de danos.
"Mesmo nesse cenário ideal, redução de danos não significa ausência de risco. O vape mantém a dependência da nicotina e já existem evidências de inflamação das vias aéreas e alterações cardiovasculares. Além disso, como esses produtos são relativamente recentes, ainda não dispomos de estudos que acompanhem seus usuários por décadas para determinar com precisão seus efeitos de longo prazo", afirma a Dra. Maria Cecília. Para fumantes que não conseguem abandonar o cigarro com as terapias convencionais, a substituição completa pelo cigarro eletrônico pode representar menor exposição a alguns compostos tóxicos, mas não deve ser interpretada como uma alternativa segura.
A única indicação terapêutica estabelecida para a nicotina continua sendo o tratamento do tabagismo. Para quem nunca fumou, não há evidências que justifiquem seu uso em qualquer modalidade. Para o fumante que não conseguiu parar com as estratégias disponíveis, a decisão exige julgamento clínico informado por evidência. Não há protocolo, nem certezas. Apenas tentativas de, caso a caso, lidar com um problema que a medicina ainda não resolveu completamente. Fonte: medscape.
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