sexta-feira, 10 de julho de 2026

Estudo testa transplante de células como tratamento para Parkinson

100726 - Em um estudo preliminar com oito pacientes, cientistas demonstraram a segurança do procedimento, feito com tecido embrionário reprogramado para se transformar em neurônios. Há um longo caminho antes da aplicação clínica, mas autores estão otimistas

Caracterizada pela morte gradual de células produtoras de dopamina, a doença de Parkinson causa sintomas como espasmos, perda de equilíbrio e rigidez muscular - (crédito: Rawpixel/Divulgação )


Durante décadas, o tratamento da doença de Parkinson se concentrou em amenizar os sintomas provocados pela perda progressiva dos neurônios fabricantes da substância dopamina, o que é feito, atualmente, com o uso de medicamentos. Agora, um estudo com humanos aponta para uma nova linha terapêutica: substituir as células cerebrais destruídas por estruturas novas de origem embrionária, programadas geneticamente para produzir o neurotransmissor naturalmente.

Estudo testa transplante de células como tratamento para Parkinson

Em um estudo preliminar com oito pacientes, cientistas demonstraram a segurança do procedimento, feito com tecido embrionário reprogramado para se transformar em neurônios. Há um longo caminho antes da aplicação clínica, mas autores estão otimistas

Para enfrentar essas limitações, pesquisadores da Inglaterra, da Suécia e dos Estados Unidos testaram a segurança do transplante, no cérebro, de neurônios produtores de dopamina, derivados de células-tronco embrionárias. Como ainda é um estudo inicial, a pesquisa, publicada na revista Nature Medicine e apresentada ontem no congresso da reunião anual da Sociedade Internacional para Pesquisa com Células-Tronco, em Montreal, no Canadá, foi realizada com apenas oito pacientes, acompanhados durante um ano. Segundo os cientistas, o procedimento mostrou-se viável, abrindo caminho para investigações com um número maior de pessoas. 

Marco

“A possibilidade de substituir os neurônios dopaminérgicos perdidos na doença de Parkinson tem sido um objetivo de longa data na área”, disse Malin Parmar, professora de neurociência celular na Universidade de Lund, na Suécia, e líder do estudo. “As descobertas representam um marco importante para as abordagens da medicina regenerativa na doença de Parkinson e apoiam o desenvolvimento clínico contínuo de terapias baseadas em células-tronco.” 

No estudo, oito pacientes da doença neurodegenerativa receberam o produto celular transplantado em duas doses diferentes, seguido por 12 meses de imunossupressão para prevenir a rejeição do enxerto. Sete participantes completaram o acompanhamento e um morreu devido a uma infecção pulmonar não diretamente relacionada ao procedimento. Segundo os autores, o processo cirúrgico foi bem tolerado, sem efeitos colaterais importantes. 

Exames de imagem utilizando um marcador da produção de dopamina mostraram aumento da atividade justamente nas regiões onde as células haviam sido implantadas, especialmente entre os pacientes que receberam a dose mais elevada do enxerto. Para os pesquisadores, isso indica que parte das células transplantadas sobreviveu e começou a funcionar.  

Sintomas

Em relação aos sintomas, os resultados foram mais modestos. Alguns pacientes apresentaram melhora da função motora, outros permaneceram estáveis e a maioria conseguiu reduzir a dose diária de medicamentos antiparkinsonianos. Seis dos sete voluntários acompanhados durante um ano diminuíram a quantidade de remédios utilizada.

“Esperamos que esse seja o início de um novo e empolgante programa que poderá, em última análise, beneficiar toda a comunidade de pacientes com Parkinson”, afirmou, em nota, Roger Barker, professor de neurociência clínica da Universidade de Cambridge, líder clínico e investigador principal clínico no centro do Reino Unido.  

Hoje, estima-se que mais de 8,5 milhões de pessoas vivam com Parkinson no mundo, número que pode ultrapassar 12 milhões até 2040. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), trata-se da doença neurológica que mais cresce em prevalência e incapacidade nas últimas décadas. No Brasil, há cerca de meio milhão de pacientes diagnosticados, com cerca de 36 mil novos casos anualmente. 

Embriões

Embora no estudo os testes tenham sido feitos com células-tronco de embriões humanos, os autores acreditam que futuramente será possível utilizar estruturas retiradas da pele ou do sangue do próprio paciente e reprogramadas para se especializaram na produção de dopamina. Além do trabalho descrito ontem, há equipes nos Estados Unidos, no Japão e na Coreia do Sul trabalhando com diferentes tipos celulares para se especializarem em neurônios dopaminérgicos. 

 “O maior desafio para a terapia celular autóloga (que usa células do próprio paciente) tem sido o desenvolvimento de métodos confiáveis para qualificar as células de cada paciente para o tratamento”, explica Jeanne Loring, pesquisadora do Scripps Research, nos Estados Unidos. Segundo a pesquisadora, abordagens de análise genômica que identificam possíveis mutações futuras têm sido aplicadas para tornar o procedimento cada vez mais personalizado.

O novo estudo, porém, é preliminar e há um longo caminho para confirmar as descobertas, alertam especialistas. “Apesar de a pesquisa trazer esperança, a gente ainda está longe de falar que isso é uma terapia que vai ser aplicada na prática clínica. Ainda há várias etapas, pois esses primeiros estudos estão na fase de avaliar a segurança do tratamento, ou seja, para avaliar se essas células-tronco não serão transformadas em células malignas e tumorais. Essa é uma das principais preocupações, além de complicações a longo prazo, que podem até piorar os sintomas da doença de Parkinson”, observa a médica neurologista Luciana Mendonça Barbosa, professora da Universidade Católica de Brasília (UCB).

A docente lembra que há outros dois estudos preliminares sobre o transplante de células dopaminérgicas que demonstraram a segurança. “Esse terceiro mostra que o tratamento, de fato, é seguro ao longo de um ano. Os cientistas vão acompanhar os pacientes por mais três anos, então teremos mais dados sobre ele”, diz. 

Mesmo com as limitações da fase atual, Jeanne Loring diz que está otimista. “Sabemos há décadas que o transplante de neurônios dopaminérgicos jovens pode reverter os sintomas da doença de Parkinson quando as células apropriadas são utilizadas. Se essas descobertas se confirmarem ao longo do tempo, esperamos observar melhorias significativas na qualidade de vida, que continuarão a aumentar à medida que as células transplantadas amadurecem”, explica. 

Palavra de especialista

O estudo representa um grande avanço em relação à possibilidade de se implantar células-tronco do próprio paciente no cérebro, com segurança. O fato de os cientistas terem demonstrado que essas células-tronco sobreviveram é muito interessante. Elas não só sobreviveram, mas realmente se mostraram funcionais: conseguiram produzir dopamina sem complicações, como hemorragias e formação de tumores. Porém, na prática, ainda não é algo com utilidade clínica imediata — até agora, o objetivo era demonstrar a segurança. Pode ser que, na continuidade desse estudo, descubram-se maneiras de obter uma eficácia clínica maior. A ciência tem vários desafios na evolução desse tipo de pesquisa. O primeiro foi provar que é possível diferenciar uma célula-tronco de um paciente para que ela produza dopamina e implantá-la no cérebro com segurança. O próximo desafio é comprovar essa segurança com um número maior de pacientes e entender se haverá um benefício clínico que justifique a complexidade do procedimento. 

Bruno Brujaili, neurocirugião do Hospital Sírio-Libanês de São Paulo, especialista em doença de Parkinson 

Duas perguntas para

Carlos Uribe, neurologista do Hospital Brasília, da Rede Américas 

O estudo representa uma mudança de paradigma no tratamento do Parkinson?

Sim, é uma possibilidade. Atualmente, o tratamento de sintomas motores e não motores para a doença de Parkinson é de reposição, seja de dopamina ou de outros neurotransmissores que podem estar alterados no cérebro do paciente. No caso dos motores, os sintomas são tratados com a reposição da dopamina, que vai agir exatamente nessa via nigroestretal (feixe de neurônios dopaminérgicos que conecta a substância negra ao corpo estriado) que está deficiente e que provoca os sintomas de rigidez, tremor e lentidão de movimentos. Esse estudo, que é ainda preliminar, está na fase 1 e 2, em humanos, ainda precisa ser confirmado com pesquisas mais abrangentes. Mas realmente o que foi descrito é uma nova estratégia de tratamento. Se isso for confirmado em estudos maiores, os pacientes precisarão de doses menores de dopamina para atingir o mesmo efeito de melhora nos sintomas, comparado aos medicamentos atuais. 

Quais são os principais desafios científicos antes que uma terapia celular como essa possa ser oferecida na prática clínica?

Para chegar até a prática clínica, ainda há um caminho longo a ser percorrido, mas o primeiro passo foi dado, realmente os resultados são animadores e agora deve ser confirmado em populações maiores, além de ser controlado com placebo. Quando se comparar o tratamento descrito no estudo com um procedimento que não coloque as células produtoras de dopamina no cérebro, ou que implante outro tipo de celular que não produz a substância, aí vai se confirmar se realmente a intervenção que está sendo feita é o que provoca a melhora sintomática desses pacientes. Isso deve levar vários anos ainda, mais de cinco, pelo menos, para a gente conseguir chegar numa resposta. Fonte: Para enfrentar essas limitações, pesquisadores da Inglaterra, da Suécia e dos Estados Unidos testaram a segurança do transplante, no cérebro, de neurônios produtores de dopamina, derivados de células-tronco embrionárias. Como ainda é um estudo inicial, a pesquisa, publicada na revista Nature Medicine e apresentada ontem no congresso da reunião anual da Sociedade Internacional para Pesquisa com Células-Tronco, em Montreal, no Canadá, foi realizada com apenas oito pacientes, acompanhados durante um ano. Segundo os cientistas, o procedimento mostrou-se viável, abrindo caminho para investigações com um número maior de pessoas. 

Marco

“A possibilidade de substituir os neurônios dopaminérgicos perdidos na doença de Parkinson tem sido um objetivo de longa data na área”, disse Malin Parmar, professora de neurociência celular na Universidade de Lund, na Suécia, e líder do estudo. “As descobertas representam um marco importante para as abordagens da medicina regenerativa na doença de Parkinson e apoiam o desenvolvimento clínico contínuo de terapias baseadas em células-tronco.” 

No estudo, oito pacientes da doença neurodegenerativa receberam o produto celular transplantado em duas doses diferentes, seguido por 12 meses de imunossupressão para prevenir a rejeição do enxerto. Sete participantes completaram o acompanhamento e um morreu devido a uma infecção pulmonar não diretamente relacionada ao procedimento. Segundo os autores, o processo cirúrgico foi bem tolerado, sem efeitos colaterais importantes. 

Exames de imagem utilizando um marcador da produção de dopamina mostraram aumento da atividade justamente nas regiões onde as células haviam sido implantadas, especialmente entre os pacientes que receberam a dose mais elevada do enxerto. Para os pesquisadores, isso indica que parte das células transplantadas sobreviveu e começou a funcionar.  

Sintomas

Em relação aos sintomas, os resultados foram mais modestos. Alguns pacientes apresentaram melhora da função motora, outros permaneceram estáveis e a maioria conseguiu reduzir a dose diária de medicamentos antiparkinsonianos. Seis dos sete voluntários acompanhados durante um ano diminuíram a quantidade de remédios utilizada.

“Esperamos que esse seja o início de um novo e empolgante programa que poderá, em última análise, beneficiar toda a comunidade de pacientes com Parkinson”, afirmou, em nota, Roger Barker, professor de neurociência clínica da Universidade de Cambridge, líder clínico e investigador principal clínico no centro do Reino Unido.  

Hoje, estima-se que mais de 8,5 milhões de pessoas vivam com Parkinson no mundo, número que pode ultrapassar 12 milhões até 2040. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), trata-se da doença neurológica que mais cresce em prevalência e incapacidade nas últimas décadas. No Brasil, há cerca de meio milhão de pacientes diagnosticados, com cerca de 36 mil novos casos anualmente. 

Embriões

Embora no estudo os testes tenham sido feitos com células-tronco de embriões humanos, os autores acreditam que futuramente será possível utilizar estruturas retiradas da pele ou do sangue do próprio paciente e reprogramadas para se especializaram na produção de dopamina. Além do trabalho descrito ontem, há equipes nos Estados Unidos, no Japão e na Coreia do Sul trabalhando com diferentes tipos celulares para se especializarem em neurônios dopaminérgicos. 

 “O maior desafio para a terapia celular autóloga (que usa células do próprio paciente) tem sido o desenvolvimento de métodos confiáveis para qualificar as células de cada paciente para o tratamento”, explica Jeanne Loring, pesquisadora do Scripps Research, nos Estados Unidos. Segundo a pesquisadora, abordagens de análise genômica que identificam possíveis mutações futuras têm sido aplicadas para tornar o procedimento cada vez mais personalizado.

O novo estudo, porém, é preliminar e há um longo caminho para confirmar as descobertas, alertam especialistas. “Apesar de a pesquisa trazer esperança, a gente ainda está longe de falar que isso é uma terapia que vai ser aplicada na prática clínica. Ainda há várias etapas, pois esses primeiros estudos estão na fase de avaliar a segurança do tratamento, ou seja, para avaliar se essas células-tronco não serão transformadas em células malignas e tumorais. Essa é uma das principais preocupações, além de complicações a longo prazo, que podem até piorar os sintomas da doença de Parkinson”, observa a médica neurologista Luciana Mendonça Barbosa, professora da Universidade Católica de Brasília (UCB).

A docente lembra que há outros dois estudos preliminares sobre o transplante de células dopaminérgicas que demonstraram a segurança. “Esse terceiro mostra que o tratamento, de fato, é seguro ao longo de um ano. Os cientistas vão acompanhar os pacientes por mais três anos, então teremos mais dados sobre ele”, diz. 

Mesmo com as limitações da fase atual, Jeanne Loring diz que está otimista. “Sabemos há décadas que o transplante de neurônios dopaminérgicos jovens pode reverter os sintomas da doença de Parkinson quando as células apropriadas são utilizadas. Se essas descobertas se confirmarem ao longo do tempo, esperamos observar melhorias significativas na qualidade de vida, que continuarão a aumentar à medida que as células transplantadas amadurecem”, explica. 

Palavra de especialista

O estudo representa um grande avanço em relação à possibilidade de se implantar células-tronco do próprio paciente no cérebro, com segurança. O fato de os cientistas terem demonstrado que essas células-tronco sobreviveram é muito interessante. Elas não só sobreviveram, mas realmente se mostraram funcionais: conseguiram produzir dopamina sem complicações, como hemorragias e formação de tumores. Porém, na prática, ainda não é algo com utilidade clínica imediata — até agora, o objetivo era demonstrar a segurança. Pode ser que, na continuidade desse estudo, descubram-se maneiras de obter uma eficácia clínica maior. A ciência tem vários desafios na evolução desse tipo de pesquisa. O primeiro foi provar que é possível diferenciar uma célula-tronco de um paciente para que ela produza dopamina e implantá-la no cérebro com segurança. O próximo desafio é comprovar essa segurança com um número maior de pacientes e entender se haverá um benefício clínico que justifique a complexidade do procedimento. 

Bruno Brujaili, neurocirugião do Hospital Sírio-Libanês de São Paulo, especialista em doença de Parkinson 

Duas perguntas para

Carlos Uribe, neurologista do Hospital Brasília, da Rede Américas 

O estudo representa uma mudança de paradigma no tratamento do Parkinson?

Sim, é uma possibilidade. Atualmente, o tratamento de sintomas motores e não motores para a doença de Parkinson é de reposição, seja de dopamina ou de outros neurotransmissores que podem estar alterados no cérebro do paciente. No caso dos motores, os sintomas são tratados com a reposição da dopamina, que vai agir exatamente nessa via nigroestretal (feixe de neurônios dopaminérgicos que conecta a substância negra ao corpo estriado) que está deficiente e que provoca os sintomas de rigidez, tremor e lentidão de movimentos. Esse estudo, que é ainda preliminar, está na fase 1 e 2, em humanos, ainda precisa ser confirmado com pesquisas mais abrangentes. Mas realmente o que foi descrito é uma nova estratégia de tratamento. Se isso for confirmado em estudos maiores, os pacientes precisarão de doses menores de dopamina para atingir o mesmo efeito de melhora nos sintomas, comparado aos medicamentos atuais. 

Quais são os principais desafios científicos antes que uma terapia celular como essa possa ser oferecida na prática clínica?

Para chegar até a prática clínica, ainda há um caminho longo a ser percorrido, mas o primeiro passo foi dado, realmente os resultados são animadores e agora deve ser confirmado em populações maiores, além de ser controlado com placebo. Quando se comparar o tratamento descrito no estudo com um procedimento que não coloque as células produtoras de dopamina no cérebro, ou que implante outro tipo de celular que não produz a substância, aí vai se confirmar se realmente a intervenção que está sendo feita é o que provoca a melhora sintomática desses pacientes. Isso deve levar vários anos ainda, mais de cinco, pelo menos, para a gente conseguir chegar numa resposta. Fonte: correiobraziliense.

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