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sexta-feira, 31 de julho de 2026

Entre remédio e veneno, a nicotina desafia conclusões precipitadas

31 de julho de 2026 - Um pó preparado com folhas secas, administrado por via nasal para aliviar a cefaleia. Foi essa a novidade que o diplomata francês Jean Nicot enviou de Lisboa, em 1560, a Catarina de Médici, mãe do rei Francisco II, para tratar suas recorrentes crises de migrânea. O tabaco, recém-chegado da América, ganhou prestígio na Europa, apelidado de “erva-da-rainha”, dando início a uma trajetória que transformou o remédio na principal epidemia evitável da história.

Em homenagem a Nicot, o gênero botânico da planta de tabaco passou a se chamar Nicotiana. Séculos depois, quando os químicos Wilhelm Heinrich Posselt e Karl Ludwig Reimann isolaram seu principal alcaloide, em 1828, o chamaram de nicotina. A substância associada ao tabagismo carrega o nome de quem a apresentou ao mundo como remédio.

A novidade do francês era antiga conhecida neste lado do Atlântico. A América do Sul concentra a maior diversidade do gênero Nicotiana e é considerada seu principal centro de origem, com  evidências de uso humano que remontam a 12.300 anos atrás. A espécie mais cultivada, a Nicotiana tabacum, tem origem nas regiões que hoje correspondem à Bolívia e ao Peru, a partir de onde se disseminou pelo continente.

Quando os europeus chegaram, encontraram o tabaco integrado ao cotidiano de praticamente todos os povos indígenas. Era fumado, mascado, aspirado ou utilizado em infusões, desempenhando papel central nas práticas de cura, nos rituais religiosos e na organização social. Na América portuguesa, cronistas do século XVI registraram esses usos com detalhes. No seu Tratado descritivo do Brasil em 1587, Gabriel Soares de Sousa relata que os colonos aprenderam com os indígenas a utilizar o petume — ou erva-santa em Portugal — para tratar chagas e eliminar larvas em feridas. Jean de Léry, que viveu entre os tupinambá na região da Baía de Guanabara, registrou que os indígenas nunca se encontravam sem o charuto de tabaco. O jesuíta Fernão Cardim foi mais direto: segundo ele, tanto nativos quanto portugueses eram completamente perdidos pela erva, passando "todo o dia e a noite deitados nas redes a beber fumo".

Os usos medicinais documentados incluíam analgesia em casos de dor de dente e artralgia, ação antiparasitária em feridas, antissepsia, aplicação como repelente de insetos e consumo para suprimir fome e sede em longas jornadas. O que os europeus registravam como ritual tinha, em muitos casos, base farmacológica real. A ciência levaria séculos para entender o que esses povos já sabiam.

A revolução industrial do tabaco

Na Europa, porém, o tabaco chegou como produto de luxo. Por décadas, o consumo permaneceu limitado pela escassez da planta e pelo preparo artesanal. Isso mudou em 1881, quando o estadunidense James Bonsack patenteou uma máquina capaz de produzir cerca de 120 mil cigarros por dia, aproximadamente 13 vezes mais do que um trabalhador conseguia enrolar no mesmo período. A inovação reduziu drasticamente os custos de produção. Nas décadas seguintes, publicidade agressiva, distribuição de cigarros a soldados durante as duas guerras mundiais e campanhas que associavam o hábito à modernidade consolidaram um mercado global. O cigarro industrializado não era apenas mais barato e acessível — era também o modo de uso mais eficiente já criado para uma substância que atua no sistema de recompensa do cérebro.

Após cada tragada, a nicotina alcança o cérebro em poucos segundos e se liga aos  receptores nicotínicos de acetilcolina, estruturas que participam de funções como atenção, aprendizagem, memória e controle motor. Ao ativá-los, a substância desencadeia a liberação de dopamina no sistema de recompensa cerebral, o mesmo circuito envolvido no reforço de comportamentos essenciais para a sobrevivência, como comer e beber. Com a exposição repetida, o cérebro se adapta. São necessários, então, níveis cada vez maiores de nicotina para produzir o mesmo efeito, enquanto a interrupção do consumo passa a desencadear irritabilidade, ansiedade, dificuldade de concentração e fissura intensa. "A dependência resulta de adaptações neurobiológicas que tornam extremamente difícil interromper o consumo, mesmo quando a pessoa conhece todos os riscos associados ao cigarro", afirma a toxicologista Dra. Ingrid Dragan Taricano. 

O impacto desse processo foi devastador. Estima-se que o tabagismo tenha causado cerca de 100 milhões de mortes ao longo do século XX e continue sendo responsável por mais de 7 milhões de óbitos por ano em todo o mundo. Mesmo quando recebem o tratamento considerado mais eficaz, que inclui associação entre medicamentos para cessação e apoio comportamental, apenas cerca de um em cada quatro tabagistas permanece abstinente após um ano.

"A fumaça entra pelas vias respiratórias superiores e alcança os pulmões. Dali, muitos desses compostos atravessam a barreira pulmonar, entram na circulação e são distribuídos para praticamente todo o organismo. Parte deles é metabolizada no fígado, outra permanece circulando por diferentes tecidos, o que amplia o potencial de exposição de vários órgãos aos agentes carcinogênicos", explica o oncologista Dr. Helano Freitas, líder do Centro de Referência em Tumores de Pulmão e Tórax do A.C.Camargo Cancer Center. Esse mecanismo explica a associação do tabagismo não apenas com o câncer de pulmão, mas também com tumores de boca, faringe, laringe, esôfago, pâncreas, rim e bexiga.

A frase que mudou as perguntas científicas

Em 1976, o psiquiatra britânico Dr. Michael Russell resumiu décadas de observações clínicas em uma frase que continua sendo citada meio século depois: "As pessoas fumam pela nicotina, mas morrem pelo alcatrão".

A afirmação não pretendia absolver o cigarro. Ela chamava a atenção para algo que começava a emergir na literatura científica: a dependência e as principais doenças relacionadas ao tabagismo não decorrem do mesmo mecanismo biológico. Enquanto a nicotina é a principal responsável por reforçar o comportamento tabagista, a fumaça gerada pela combustão do tabaco concentra milhares de substâncias químicas, entre elas alcatrão, monóxido de carbono e dezenas de compostos carcinogênicos, que respondem pela maior parte dos danos cardiovasculares, respiratórios e oncológicos associados ao cigarro.

"Russell foi um dos primeiros pesquisadores a formular essa distinção de maneira clara. Ela mudou a forma como a comunidade científica pensava a dependência do tabaco e abriu caminho para o desenvolvimento das terapias de reposição de nicotina", afirma o Dr. Konstantinos Farsalinos, médico e pesquisador especializado no tema.

Se fosse possível fornecer nicotina sem expor o tabagista aos produtos da combustão, talvez fosse possível reduzir o sofrimento causado pela abstinência. Ao separar a molécula de nicotina da fumaça do cigarro, Dr. Michael Russell abriu caminho para o estudo da substância isolada e, assim, para a possibilidade de transformar em evidência científica parte do que os povos indígenas das Américas já conheciam por observação empírica há milênios.

Entre o empírico e as evidências 

Relatos históricos mostram que diferentes povos utilizavam o tabaco para aliviar dor de dente, cefaleia e artralgia. Durante muito tempo, essas descrições permaneceram apenas como registros etnográficos. Nas últimas décadas, porém, estudos em humanos demonstraram que a administração aguda de nicotina produz  efeito analgésico mensurável, aumentando o limiar e a tolerância à dor, resultado  confirmado em 2023. O fenômeno decorre da ativação de receptores nicotínicos de acetilcolina no sistema nervoso e da modulação de mecanismos inflamatórios em processos que envolvem o receptor α7 nicotínico de acetilcolina.

Jean de Léry registrou no século XVI que alguns indígenas permaneciam longos períodos sem se alimentar após utilizar tabaco. O relato parecia exagerado para muitos historiadores, mas em 2011 pesquisadores publicaram na Science o mecanismo exato: a nicotina ativa neurônios POMC no hipotálamo, região responsável pela regulação da saciedade, desencadeando vias neurais que reduzem a necessidade de ingestão alimentar.


Quanto ao alívio das crises migranosas de Catarina de Médici, as pesquisas são incertas. Uma revisão publicada no Headache Journal em 2015 concluiu que a nicotina é fator desencadeante de cefaleia e deve ser evitada em programas de tratamento da migrânea. Outros estudos relatam efeito oposto: melhora de cefaleia após uso agudo da substância, com mecanismo proposto de vasoconstrição. A ambiguidade persiste sem resolução, e a primeira indicação medicinal que deu nome à molécula continua sendo, quase 500 anos depois, a menos compreendida.

Os indígenas também esfregavam folhas de tabaco na pele e fumegavam os arredores para afastar insetos e eliminar potenciais parasitas. Essa propriedade fez da nicotina um dos primeiros inseticidas orgânicos sistematicamente usados na agricultura moderna, amplamente utilizado na horticultura europeia até ser banido no início do século XXI por toxicidade a abelhas. Hoje, os neonicotinoides, a classe de inseticidas mais usada no planeta, são seus derivados sintéticos, desenvolvidos para manter a eficácia, mas com menor toxicidade para mamíferos.

"Quando analisamos a nicotina isoladamente, percebemos que ela tem efeitos farmacológicos próprios, alguns deles conhecidos há décadas pela farmacologia experimental. Isso não significa que o cigarro seja um medicamento, mas ajuda a entender por que a molécula desperta tanto interesse científico", explica o Dr. Bernhard-Michael Mayer, farmacologista e toxicologista da Universidade de Graz, na Áustria.

A descoberta de que os receptores nicotínicos de acetilcolina estão presentes em diferentes tecidos do organismo ampliou os horizontes da pesquisa. Pesquisadores passaram a se perguntar o que acontece quando esses receptores são ativados em contextos muito além da dependência.

Uma das primeiras pistas surgiu da epidemiologia.  Estudos mostram há décadas que grupos de tabagistas apresentam menor incidência de doença de Parkinson do que pessoas que nunca fumaram. A associação despertou interesse, porque a nicotina pode modular receptores envolvidos na sobrevivência de neurônios dopaminérgicos e influenciar vias relacionadas à neuroinflamação. Plausibilidade biológica, porém, não é sinônimo de eficácia clínica.  Os ensaios clínicos não demonstraram benefício consistente da nicotina na prevenção nem no tratamento da doença.

A pesquisa sobre o declínio cognitivo seguiu caminho semelhante. Em 2012, um  estudo-piloto com 74 pessoas com comprometimento cognitivo leve mostrou melhora em testes de atenção e memória após seis meses de uso de adesivos transdérmicos de nicotina. O resultado motivou o estudo  MIND, financiado pelo National Institutes of Health (NIH) dos Estados Unidos. Durante dois anos, participantes utilizaram adesivos de nicotina com dose titulada até 21 mg por dia. Em dezembro de 2025, os pesquisadores divulgaram os  resultados: em comparação com o placebo, o tratamento não retardou a perda de memória nem a progressão do comprometimento cognitivo.

Um estudo publicado recentemente no Nicotine & Tobacco Research mostrou que o uso de nicotina aumentou a  memória de trabalho e os níveis plasmáticos de BDNF em humanos. A distinção é clinicamente relevante: a nicotina produz efeito cognitivo real no curto prazo, mas esse efeito não se traduz em proteção contra o declínio progressivo característico do comprometimento cognitivo leve.

Na colite ulcerativa, a observação de partida foi clínica: tabagistas têm menor risco de apresentar a doença, e alguns pacientes relatam piora dos sintomas após interromper o tabagismo. Um dos mecanismos propostos envolve a  via colinérgica anti-inflamatória: a ativação do receptor nicotínico α7 reduz a produção de citocinas pró-inflamatórias, como TNF-α e IL-1β.  Ensaios clínicos com adesivos transdérmicos observaram melhora em parte dos pacientes com doença ativa leve a moderada, mas os resultados foram heterogêneos e os efeitos adversos, frequentes. A nicotina não integra o tratamento recomendado nas diretrizes atuais.

Pesquisadores levantaram a hipótese de que a proteína spike do SARS-CoV-2 interagiria com receptores nicotínicos de acetilcolina, especialmente o subtipo α7, contribuindo para a neuroinflamação observada na covid-19 longa. Pequenos estudos clínicos passaram a avaliar o uso de adesivos transdérmicos nesses pacientes, mas até o momento não há evidências clínicas robustas de benefício.

"O fato de uma molécula apresentar efeitos biológicos interessantes não significa que ela se tornará um medicamento. Entre identificar um mecanismo e demonstrar benefício clínico existe um caminho longo que depende de estudos cuidadosamente conduzidos", explica a Dra. Ingrid.

Nada inocente

Em sua 11ª edição, a Classificação Internacional de Doenças (CID-11) abandonou o termo "dependência de tabaco" para adotar uma denominação mais precisa: dependência de nicotina. A mudança reconhece que a substância é o centro do problema — e não a planta.

Os efeitos cardiovasculares imediatos são reais. Ao estimular o sistema nervoso simpático, a nicotina promove a liberação de norepinefrina, aumenta a frequência cardíaca, eleva a pressão arterial e provoca vasoconstrição, efeitos que costumam durar cerca de 20 minutos após cada exposição. A situação muda quando se analisam formas de administração contínua, como a terapia de reposição de nicotina. Embora provoque elevação transitória da frequência cardíaca e da pressão arterial, as evidências não demonstraram aumento de complicações cardiovasculares graves com a terapia de reposição, mesmo em pacientes com doença coronariana estável. O risco cardiovascular depende da forma de exposição, da dose e do contexto clínico.

0Em oncologia, talvez nenhuma confusão seja tão frequente. Até o momento, não há evidências de que a nicotina seja carcinogênica em seres humanos. A molécula não figura entre os agentes classificados como carcinogênicos pela International Agency for Research on Cancer (IARC), que atribui o aumento do risco de câncer ao tabagismo, à fumaça do tabaco e aos compostos gerados durante a combustão, e não à nicotina isoladamente.

O Dr. Helano chama a atenção para um mecanismo menos conhecido. A nicotina reduz o tônus do esfíncter entre o esôfago e o estômago, favorecendo episódios repetidos de refluxo gastroesofágico. Essa agressão crônica à mucosa esofágica pode contribuir para o surgimento de a,denocarcinoma de esôfago, tumor cuja incidência tem crescido nas últimas décadas.

Estudos pré-clínicos sugerem que a nicotina pode interferir em processos relacionados à progressão de tumores já estabelecidos, como proliferação celular, angiogênese e resistência à apoptose. Até o momento, porém, esses achados não se traduziram em evidências clínicas consistentes. "Não existem evidências clínicas robustas que justifiquem contraindicar a terapia de reposição de nicotina para pacientes que precisam parar de fumar durante o tratamento do câncer", afirma o cirurgião oncológico Dr. Edgard Mesquita, do corpo clínico dos hospitais Sírio-Libanês e Albert Einstein, em São Paulo.

Como tratar a dependência de nicotina

A  terapia de reposição de nicotina continua sendo uma das principais estratégias disponíveis. Adesivos, gomas, pastilhas, sprays nasais e inaladores fornecem a molécula sem expor o paciente aos produtos tóxicos da combustão do tabaco.

Um dos erros mais comuns na prática clínica é prescrever apenas uma formulação. As diretrizes recomendam, para muitos pacientes, a  terapia combinada: um adesivo de liberação prolongada para manter níveis basais associado a uma formulação de ação rápida, como goma ou pastilha, para controlar episódios de fissura. Em comparação com a monoterapia, essa estratégia aumenta as taxas de cessação. Outro problema frequente é a orientação insuficiente: bebidas e alimentos ácidos, entre eles o café, reduzem a absorção da nicotina pela goma, comprometendo o tratamento.

Entre os medicamentos disponíveis, a  vareniclina permanece como a opção isolada mais eficaz. Agonista parcial dos receptores nicotínicos α4β2, ela reduz os sintomas de abstinência e diminui o efeito recompensador do cigarro. Sua trajetória, porém, inclui um capítulo de estigmatização injusta. Em 2009, a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA incluiu na embalagem do medicamento um alerta para possíveis eventos neuropsiquiátricos graves, como transtorno depressivo e ideação suicida. Com isso, a prescrição caiu drasticamente.

O cenário mudou em 2016, após a publicação do  estudo EAGLES, o maior ensaio clínico já realizado para avaliar a segurança neuropsiquiátrica dos medicamentos para cessação do tabagismo. Com mais de 8 mil participantes, incluindo pacientes com doença psiquiátrica estável, o estudo mostrou que a incidência de eventos neuropsiquiátricos graves no grupo que usou vareniclina não foi significativamente maior do que com placebo. A FDA retirou o alerta no mesmo ano. 

Os pesquisadores observaram ainda que pacientes com transtornos psiquiátricos apresentaram maior frequência de eventos adversos em todos os grupos avaliados, inclusive entre os que receberam placebo, sugerindo que parte desse risco estava relacionada à própria doença de base e ao processo de abstinência. Hoje, a vareniclina é considerada opção segura para pacientes com doença psiquiátrica estável, desde que acompanhados adequadamente. Seus efeitos adversos mais comuns continuam sendo náuseas, frequentemente minimizadas quando o medicamento é ingerido após as refeições, além de insônia e sonhos vívidos.

Para pacientes com maior dependência, a  combinação vareniclina + reposição de nicotina mostrou eficácia superior a qualquer monoterapia em metanálise publicada em 2025. O custo é um perfil de efeitos adversos ligeiramente maior: náuseas, reações cutâneas e alterações do sono são mais frequentes na combinação do que em qualquer monoterapia.

A vareniclina mostrou em abril de 2025 outro resultado relevante. Um  ensaio clínico randomizado publicado no JAMA testou o medicamento especificamente para tratar dependência de vape em jovens e adultos jovens. Os resultados mostraram abstinência de 51% no grupo vareniclina versus 14% no placebo em 12 semanas. É o primeiro dado robusto de eficácia de farmacoterapia para cessação do uso de vape. No entanto, mesmo com o melhor arsenal disponível, três em cada quatro pacientes não conseguem parar.

Sem combustão

Se o que mata é a fumaça, e não a nicotina, seria possível reduzir os danos desse uso administrando nicotina inalada mas sem a combustão do tabaco?

Foi essa lógica que sustentou o desenvolvimento dos dispositivos eletrônicos para fumar. Sem combustão, deixam de ser produzidos monóxido de carbono, hidrocarbonetos policíclicos aromáticos e boa parte dos compostos reconhecidamente carcinogênicos presentes na fumaça do cigarro convencional.

Os resultados, porém, mostram um cenário menos linear do que se imaginava. Um estudo publicado em 2025 no JAMA Network Open, que analisou dados de mais de 6 mil tabagistas norte-americanos com ajuste rigoroso para fatores de confusão, encontrou que o uso de vape estava associado a taxas de cessação significativamente menores do que entre fumantes que não vapavam. Tanto usuários diários quanto ocasionais apresentaram menor probabilidade de abandonar completamente o cigarro, sugerindo manutenção da dependência de nicotina.

Os dispositivos atuais utilizam, em sua maioria, sais de nicotina que fornecem concentrações elevadas da substância com menor irritação das vias respiratórias. "Muitos desses dispositivos entregam uma concentração de nicotina superior à de um maço inteiro de cigarros comuns", afirma a pneumologista Dra. Maria Cecília Maiorano, doutora pela Universidade de São Paulo (USP).

Dados do  Levantamento Nacional de Álcool e Drogas mostram que o uso dual é frequente entre usuários de cigarros eletrônicos, mantendo a exposição aos produtos da combustão enquanto aumenta a carga total de nicotina. "O vape não funciona como estratégia de cessação", afirma a psicóloga Dra. Clarice Sandi Madruga, doutora e pós-doutora em psiquiatria e psicologia médica pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com colaboração no King's College London. O Reino Unido, frequentemente citado como referência em políticas de redução de danos, endureceu recentemente sua regulamentação após o crescimento expressivo do uso entre adolescentes.

No Brasil, a discussão regulatória avança. Em junho deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) iniciou consulta pública sobre produtos fumígenos à base de nicotina, como bolsas e sachês que liberam a substância pela mucosa oral sem combustão e sem tabaco, refletindo o crescimento do interesse pelo tema no país.

Estudos de longo prazo começam a preencher parte da lacuna de evidências. Uma  análise longitudinal da Johns Hopkins Medicine, nos EUA, publicada em 2025 com quase quatro anos de acompanhamento, mostrou que o uso exclusivo de cigarros eletrônicos está associado ao surgimento de doença pulmonar obstrutiva crônica e, possivelmente, hipertensão. Não foram encontradas associações com complicações cardiovasculares graves no período estudado, mas os autores alertam que o acompanhamento ainda é insuficiente para conclusões definitivas. Uma  revisão sistemática publicada no Tobacco Control reforça que o uso prolongado do vape pode exigir tratamento específico: intervenções farmacológicas, aconselhamento e estratégias educacionais aumentam as taxas de abandono do dispositivo.

A questão não se encerra aí. A revisão Cochrane mais recente, publicada em 2025, encontrou evidência de alta certeza de que cigarros eletrônicos ajudam fumantes a abandonar o cigarro com mais frequência do que a terapia de reposição de nicotina convencional. Em números absolutos: se seis em cada 100 pessoas param de fumar com TRN, entre oito e doze param com cigarros eletrônicos com nicotina.

Em um cenário estritamente controlado, a substituição completa do cigarro convencional por um dispositivo eletrônico de boa qualidade, com líquido padronizado, concentração conhecida de nicotina e ausência de contaminantes, tende a reduzir a exposição aos produtos tóxicos gerados pela combustão do tabaco. "Nessas condições, é possível dizer que o cigarro eletrônico provavelmente oferece menos riscos do que continuar fumando cigarros convencionais", afirma a pneumologista Dra. Maria Cecília Maiorano, doutora pela Universidade de São Paulo.

A especialista ressalta, porém, que esse cenário raramente corresponde ao uso observado na prática. Dispositivos e líquidos apresentam grande variabilidade de qualidade e composição, muitos produtos circulam sem fiscalização adequada e fatores como potência do aparelho, temperatura de aquecimento, tipo de líquido e padrão de uso modificam a quantidade de substâncias potencialmente tóxicas inaladas. Além disso, o uso dual permanece frequente, mantendo a exposição aos produtos da combustão e reduzindo ou anulando qualquer benefício potencial da redução de danos.

"Mesmo nesse cenário ideal, redução de danos não significa ausência de risco. O vape mantém a dependência da nicotina e já existem evidências de inflamação das vias aéreas e alterações cardiovasculares. Além disso, como esses produtos são relativamente recentes, ainda não dispomos de estudos que acompanhem seus usuários por décadas para determinar com precisão seus efeitos de longo prazo", afirma a Dra. Maria Cecília. Para fumantes que não conseguem abandonar o cigarro com as terapias convencionais, a substituição completa pelo cigarro eletrônico pode representar menor exposição a alguns compostos tóxicos, mas não deve ser interpretada como uma alternativa segura. 

A única indicação terapêutica estabelecida para a nicotina continua sendo o tratamento do tabagismo. Para quem nunca fumou, não há evidências que justifiquem seu uso em qualquer modalidade. Para o fumante que não conseguiu parar com as estratégias disponíveis, a decisão exige julgamento clínico informado por evidência. Não há protocolo, nem certezas. Apenas tentativas de, caso a caso, lidar com um problema que a medicina ainda não resolveu completamente. Fonte: medscape.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Via protetora no cérebro pode retardar a progressão da doença de Parkinson em mulheres

4 de maio de 2026 - Cientistas identificaram uma via protetora no cérebro que pode ajudar a retardar a progressão da doença de Parkinson, fortalecendo os neurônios produtores de dopamina do próprio cérebro, mas o efeito positivo foi observado apenas em mulheres.

No Journal of Neuroscience, pesquisadores relatam que o fortalecimento de uma via envolvendo receptores responsivos à nicotina ajudou a preservar os neurônios produtores de dopamina e reduziu os sinais de degeneração em modelos femininos. Crucialmente, o efeito ocorreu pelo aumento dos receptores responsivos à nicotina sem o uso de nicotina. As descobertas apontam para uma possível maneira de retardar a própria doença de Parkinson, e não apenas controlar seus sintomas, em uma doença cuja progressão tem sido impossível de interromper.

Este trabalho visa manter os neurônios vivos por mais tempo. "Se você conseguir preservar as células produtoras de dopamina, terá uma oportunidade real de retardar a progressão da doença."

Dr. Rahul Srinivasan, professor associado de neurociência na Faculdade de Medicina Naresh K. Vashisht da Universidade Texas A&M

O tabaco ainda faz mal

Entender como o cérebro responde à nicotina há muito tempo atrai a atenção na pesquisa sobre Parkinson, mas a nicotina é viciante e afeta muitos sistemas em todo o corpo, tornando-a inadequada para terapia de longo prazo. Em vez disso, as novas descobertas apontam para vias protetoras diretamente afetadas pela nicotina, sem depender dessa substância nociva.

"Apesar da ligação com a nicotina, esses receptores existem para servir à função cerebral normal", disse Srinivasan, cuja equipe inclui a Dra. Gauri Pandey, doutora formada pela Faculdade de Medicina, e o atual aluno de doutorado em medicina, Roger Garcia. "A nicotina simplesmente sequestra um sistema de receptores que já existe."

A via identificada no estudo se concentra em Receptores que respondem à acetilcolina, uma substância química natural do cérebro envolvida no movimento e na comunicação entre os neurônios, e os receptores onde a nicotina se liga.

A doença de Parkinson piora à medida que os neurônios produtores de dopamina morrem gradualmente e, embora os tratamentos atuais possam aliviar os sintomas repondo a dopamina ou imitando seus efeitos, eles não impedem a perda neuronal subjacente que impulsiona a progressão da doença.

Trabalhos anteriores do laboratório de Srinivasan mostraram que certos medicamentos relacionados à nicotina podiam proteger os neurônios produtores de dopamina em modelos femininos. O novo estudo questionou se a ativação desses receptores era necessária ou se a própria via protetora do cérebro poderia ser fortalecida sem a nicotina.

Para responder a essa pergunta, os pesquisadores usaram edição genética para aumentar a disponibilidade de receptores responsivos à nicotina, garantindo que mais deles chegassem às partes do neurônio onde são necessários, sem expor o cérebro à nicotina ou a medicamentos semelhantes à nicotina.

Os resultados mostraram que o reforço dessa via protetora no cérebro ajudou os neurônios produtores de dopamina a permanecerem intactos em condições que normalmente causam degeneração, enquanto as células cerebrais circundantes apresentaram reatividade reduzida, sinalizando um tecido neural mais saudável.

Por que apenas fêmeas?

Uma das descobertas mais impressionantes da equipe é que o mecanismo protetor do cérebro funcionou apenas em modelos femininos. Em diversas medidas — incluindo a preservação de neurônios dopaminérgicos, a redução da ativação de sinais de morte celular e um tecido cerebral circundante mais saudável — as fêmeas mostraram proteção consistente, enquanto os machos não.

"Essa não foi uma diferença sutil", disse Srinivasan. "A via protetora estava claramente ativa em fêmeas e ausente em machos."

A doença de Parkinson afeta homens e mulheres de forma diferente, e evidências crescentes sugerem que o sexo biológico desempenha um papel central em como os neurônios respondem aos danos. Hormônios, tráfego de receptores e regulação celular (os processos que governam o comportamento celular) podem contribuir para o fato de a via funcionar de maneira diferente entre os sexos.

"Este estudo "Isso reforça a ideia de que as diferenças entre os sexos não são detalhes secundários, mas sim fundamentais para o funcionamento da doença e para a forma como os tratamentos podem precisar ser desenvolvidos", disse Srinivasan.

Em direção a tratamentos que retardem a própria doença

Como a via recém-identificada ajuda a preservar os neurônios produtores de dopamina, em vez de simplesmente compensar sua perda, as descobertas estão alinhadas a um esforço mais amplo em direção a terapias modificadoras da doença de Parkinson.

"Cada ano adicional em que esses neurônios permanecem funcionais é importante", disse Srinivasan. "Se pudermos fortalecer as vias protetoras do cérebro precocemente, poderemos ser capazes de retardar significativamente a progressão da doença de Parkinson e melhorar a qualidade de vida dos pacientes com Parkinson."

Embora sejam necessárias mais pesquisas para determinar como essa via poderia ser alvo em humanos, o estudo oferece uma conclusão clara: retardar a doença de Parkinson pode depender não apenas do tratamento de sintomas, mas também de uma abordagem mais abrangente. Fonte: news-medical.

terça-feira, 20 de abril de 2021

A nicotina na dieta pode ajudar a combater a doença de Parkinson?

Pimentas e tomates fazem parte da família das plantas da erva-moura. Algumas plantas desta família contêm doses naturais de nicotina.

200421 - Vários estudos sugerem que a nicotina na dieta pode ter a capacidade de retardar o progresso da doença de Parkinson.

No entanto, pesquisas atualizadas da Fundação Michael J. Fox sugerem que, embora os estudos pré-clínicos sugiram uma ligação entre a nicotina, não é uma intervenção clinicamente útil para o Parkinson.

Neste artigo, investigamos as evidências disponíveis que exploram uma ligação entre a nicotina e o mal de Parkinson, bem como suas limitações.

Provas
Embora algumas pesquisas sugiram que a nicotina pode ajudar a tratar o Parkinson, muitos dos estudos são de baixa qualidade.

Estudos descobriram uma associação de Trust Source entre pessoas que fumam tabaco e aquelas com menos probabilidade de desenvolver a doença de Parkinson.

No entanto, grande parte desta pesquisa consiste em estudos com animais ou estudos de questionário para a população em geral. Muitos estudos também não estão claros se a nicotina, outros produtos químicos na fumaça do tabaco ou fatores alternativos são responsáveis ​​por bloquear a ação do Parkinson.

No final de 2018, um ensaio clínico randomizado e controlado produziu evidências de alta qualidade que mostraram que as doses diretas de nicotina via adesivos são um tratamento ineficaz para o Parkinson.

Certas espécies de Solanaceae, uma família de plantas com flores, são comestíveis e contêm nicotina. As pessoas podem estar mais familiarizadas com essas plantas sob o nome de beladona.

Esta família inclui pimentas, pimentões e tomates. Os pesquisadores têm examinado o potencial desta forma dietética de nicotina como um tratamento para o Parkinson.

Uma descoberta, publicada na revista Annals of Neurology, sugeriu que certos alimentos contendo nicotina, como plantas pertencentes à família Solanaceae, podem ajudar a diminuir o risco de Parkinson.

O estudo, liderado pela Dra. Susan Searles Nielsen e seus colegas da Universidade de Washington em Seattle, incluiu 490 participantes com doença de Parkinson e um grupo de controle de 644 indivíduos que não tinham a doença.

Os pesquisadores deram aos participantes questionários perguntando sobre sua dieta e uso de tabaco.

Eles descobriram que as pessoas que comeram níveis mais elevados de Solanaceae comestível enfrentaram um risco menor de doença de Parkinson em comparação com aquelas que não comeram tanto. De todos os alimentos que contêm nicotina, a melhor proteção parecia vir de comer pimenta.

Os efeitos protetores dos alimentos que contêm nicotina foram mais notados em pessoas que nunca haviam usado outros produtos do tabaco.

O Dr. Searles Nielsen aconselhou o seguinte sobre o estudo:

“Nosso estudo é o primeiro a investigar a nicotina na dieta e o risco de desenvolver a doença de Parkinson. Semelhante aos muitos estudos que indicam que o uso do tabaco pode reduzir o risco de Parkinson, nossas descobertas também sugerem um efeito protetor da nicotina, ou talvez um produto químico semelhante, mas menos tóxico, em pimentas e tabaco. "

Na conclusão do estudo, no entanto, a Dra. Nielsen admite que, apesar da relação entre a fumaça do tabaco ou alguns constituintes das plantas de beladona e um menor risco de desenvolver o mal de Parkinson, ela não poderia dizer se os efeitos foram resultado direto da nicotina.

Dr. Nielsen informa que mais pesquisas seriam necessárias para confirmar a nicotina como um tratamento eficaz e seguro para Parkinson.

Nicotina e Parkinson
Pimentas e tomates fazem parte da família das plantas da erva-moura. Algumas plantas desta família contêm doses naturais de nicotina.

Os cientistas sabem que alguns dos tremores do Parkinson resultam da perda de neurônios que produzem dopamina.

Embora os cientistas ainda não entendam a morte dos neurônios, certos eventos biológicos que ocorrem durante a progressão da doença os ajudaram a identificar o processo.

Algumas proteínas nas células se dobram incorretamente. O corpo de uma pessoa que não tem Parkinson descarta essas células. Em pessoas com Parkinson, o corpo aparentemente não remove do sistema as proteínas celulares mal dobradas.

Essas proteínas então se acumulam dentro das células, acabando por matá-las.

Um estudo de 2016 no Journal of Neuroscience examinou como a nicotina afeta os neurônios dopaminérgicos.

Simulando as condições que fazem com que as proteínas se dobrem incorretamente, os autores do estudo descobriram que os neurônios dopaminérgicos eram mais resistentes aos efeitos tóxicos das proteínas na presença de nicotina.

Os autores sugerem que a nicotina pode reduzir o nível de produção incorreta de proteínas e o acúmulo de proteínas mal dobradas nas células.

Se este for o caso, então as descobertas sugerem que os medicamentos à base de nicotina que não apresentam os riscos para a saúde associados ao tabagismo podem justificar uma investigação mais aprofundada para uso entre pessoas com Parkinson.

Em 2015, os geneticistas da Universidade do Alabama (UAB) tentaram mapear (recurso não mais disponível em www.nature.com) os mecanismos genéticos que podem apoiar uma associação entre a exposição à nicotina e o risco reduzido de Parkinson.O estudo descobriu que fumantes regulares tinham um risco 25% menor de Parkinson, em comparação com pessoas que nunca fumaram.

O estudo UAB identificou um gene, SV2C, que pode desempenhar um papel na redução do risco de Parkinson entre fumantes regulares.

Esse gene é “biologicamente plausível”, explicam os autores, porque a nicotina aumenta a liberação de dopamina por meio das vesículas sinápticas, que formam a parte do neurônio que armazena os neurotransmissores. São mensageiros químicos que enviam informações entre o cérebro, o sistema nervoso e os tecidos de todo o corpo.

O SV2C codifica uma proteína da vesícula sináptica em uma parte do cérebro chamada substância negra. O desenvolvimento do Parkinson danifica esta área do cérebro.

Os autores do estudo sugerem que tratamentos futuros podem abordar esse gene, e a nicotina ajudou os cientistas médicos a identificar o SV2C como uma via potencial de tratamento.

No entanto, esta pesquisa não sugere a nicotina como um tratamento para o Parkinson.

O que é a doença de Parkinson?
A doença de Parkinson é uma doença progressiva que perturba cada vez mais as funções cerebrais.

É a segunda doença degenerativa do cérebro mais comum, depois da doença de Alzheimer. Os médicos dão cerca de 50.000 novos diagnósticos de Parkinson a cada ano nos EUA, embora essa estimativa varie.

A doença de Parkinson causa degeneração no sistema nervoso central, interrompendo o movimento, os processos de pensamento e a coordenação.

A perda de células cerebrais que produzem dopamina, um importante neurotransmissor, causa os efeitos da doença.

Os sintomas se desenvolvem gradualmente e podem começar com pequenos tremores em uma das mãos. Os sintomas de Parkinson podem incluir:

tremores faciais, de mãos, braços e pernas
dificuldades de equilíbrio
movimento mais lento
membros rígidos

Nenhuma cura está disponível para o Parkinson. Até o momento, o tratamento e a medicação podem apenas aliviar alguns de seus sintomas.

Embora a nicotina na dieta possa, no futuro, produzir resultados mais positivos, as evidências atuais de alta qualidade não apóiam a nicotina como um tratamento para o Parkinson

Q:
Quais são os tratamentos mais eficazes para o Parkinson?

A:
Diferentes combinações de medicamentos são o tratamento de primeira linha no gerenciamento dos sintomas do Parkinson.

No entanto, aqueles que respondem menos aos medicamentos ou têm muitos efeitos colaterais podem se beneficiar da estimulação cerebral profunda, um procedimento cirúrgico que também é eficaz no controle dos sintomas da doença de Parkinson. Original em inglês, tradução Google, revisão Hugo. Fonte: Medicalnewstoday.

Em 2017 foi postado no blog Doença de Parkinson, notícia sobre o tratamento com nicotina procedido pelo Dr Gabriel Villafane, em Paris. Apresentou resultados promissores, e foi interrompido, tendo sido banido o médico dos ensaios, que foram encerrados. Suponho termos aí mais uma teoria da conspiração dos big pharm.

terça-feira, 9 de março de 2021

MEDICAMENTOS ANTI-FUMO PODEM TRATAR PARKINSON'S EM MULHERES

 

"Este primeiro artigo é a descrição de um efeito protetor e um mecanismo potencial da citisina contra a doença de Parkinson", disse Rahul Srinivasan. "Os próximos passos são definir os mecanismos pelos quais isso está acontecendo, especificamente o papel do estrogênio." (Crédito: Getty Images)


MARCH 8TH, 2021 - Um medicamento para parar de fumar pode potencialmente tratar mulheres com doença de Parkinson ou até mesmo interromper a progressão da doença por completo, mostra um novo estudo.

A droga, chamada citisina, comumente usada na Europa, reduz a perda de neurônios dopaminérgicos nas mulheres.

Existem aproximadamente 10 milhões de pessoas em todo o mundo que vivem com a doença de Parkinson, um distúrbio neurodegenerativo que leva a uma variedade de sintomas que podem incluir dificuldade para andar, tremores e outros não relacionados ao movimento.

Esses sintomas começam a se desenvolver quando pelo menos 50% dos neurônios de dopamina no cérebro de um indivíduo estão mortos ou deficientes. Atualmente, não há cura para o Parkinson e nenhum tratamento que possa parar ou prevenir a perda desses neurônios de dopamina necessários para o corpo se mover.

Cerca de uma década atrás, Rahul Srinivasan, professor assistente no departamento de neurociência e terapêutica experimental da Texas A&M University, ficou interessado em tentar entender por que fumantes e pessoas que consomem tabaco cronicamente têm menor risco de desenvolver a doença de Parkinson.

“Com base em estudos epidemiológicos, esse fenômeno é conhecido há cerca de 60 anos”, diz Srinivasan. “Mas as pessoas realmente não entendem por que isso acontece, porque o tabaco e a fumaça contêm muitos produtos químicos diferentes.

“Um dos produtos químicos obviamente é a nicotina, e isso explica as propriedades viciantes do tabaco e da fumaça do cigarro. Então, comecei a estudar o papel potencial da nicotina neste efeito protetor contra a doença de Parkinson.”

Dado o fato de que é muito difícil realizar testes em humanos e animais usando nicotina devido aos graves efeitos colaterais, Srinivasan decidiu testar a citisina como uma alternativa à nicotina. A citisina é uma droga para parar de fumar com propriedades semelhantes à nicotina, mas com muito poucos efeitos colaterais em pessoas.

“O que a citisina faz é se ligar aos receptores alvo, mas não os ativa de forma tão eficiente quanto a nicotina”, diz Srinivasan. “Ele mantém os receptores ‘ocupados’ e ‘os acompanham’ para a superfície do neurônio. Como a citisina é um composto natural, está disponível gratuitamente e é muito barata, decidi testar esse conceito de acompanhamento em um modelo animal da doença para ver se funciona”.

Conforme relatado no Journal of Neurochemistry, os pesquisadores induziram artificialmente a doença de Parkinson em modelos animais. Durante esse tempo, eles deram-lhes soro fisiológico (água salgada) ou citisina. Em seguida, eles realizaram uma série de experimentos comportamentais para verificar se havia algum tipo de efeito protetor nos modelos animais que receberam citisina.

Suas descobertas mostraram que houve um efeito protetor tanto em termos de redução dos comportamentos parkinsonianos quanto em termos de redução do número de neurônios perdidos de dopamina.

No entanto, o efeito protetor da citisina ocorreu apenas em modelos animais fêmeas, e não nos machos. Eles descobriram que a combinação de citisina e estrogênio produz um efeito protetor mais forte do que a citisina e nenhum estrogênio. Isso explica porque o efeito só ocorreu em modelos animais fêmeas, uma vez que os machos não possuem quantidades apreciáveis ​​de estrogênio.

Embora as descobertas atualmente se apliquem apenas a mulheres, Srinivasan espera encontrar soluções para homens e mulheres na pós-menopausa também.

“O que é realmente interessante é que existem compostos não feminizantes que foram desenvolvidos e estão sendo pesquisados ​​agora que podem ativar os receptores que o estrogênio ativa”, diz Srinivasan.

“O objetivo agora é entender como o estrogênio desencadeia a proteção em modelos animais fêmeas. Uma vez que entendamos totalmente esse componente, podemos trazer esses análogos de estrogênio não feminizantes e, potencialmente, teremos uma terapia combinada de citisina e um análogo de estrogênio não feminizante para homens.”

O próximo passo para Srinivasan e sua equipe é solidificar e confirmar o papel do estrogênio especificamente como um efeito protetor contra a doença de Parkinson.

“Diante disso, esta droga está pronta para ser usada hoje em mulheres com Parkinson, mas como é verdade para todas as drogas, você não pode obter aprovação para uma droga até que você entenda qual é exatamente o mecanismo da droga real, que é nosso próximo passo”, diz Srinivasan.

“Este primeiro artigo é a descrição de um efeito protetor e um mecanismo potencial da citisina contra a doença de Parkinson. Os próximos passos são definir os mecanismos pelos quais isso está acontecendo, especificamente o papel do estrogênio. Assim que fizermos isso, usaremos citisina para mulheres antes da menopausa ou citisina combinada com análogos de estrogênio não feminizantes para homens e mulheres, incluindo mulheres após a menopausa.” Original em inglês, tradução Google, revisão Hugo. Fonte: Futurity.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

A nicotina na dieta pode ajudar a combater a doença de Parkinson?

February 27, 2019 - Can dietary nicotine help fight Parkinson's disease?

Vários estudos sugerem que a nicotina na dieta pode ter a capacidade de retardar o progresso da doença de Parkinson.

No entanto, pesquisas atualizadas da Fundação Michael J. Fox sugerem que, embora os estudos pré-clínicos sugiram uma ligação entre a nicotina, não é uma intervenção clinicamente útil para o Parkinson.

Neste artigo, investigamos as evidências disponíveis que exploram uma ligação entre a nicotina e o Parkinson, bem como suas limitações.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Estudo sobre fumar acrescenta combustível ao debate de Parkinson

- Um hábito desagradável poderia ter um benefício real?

May 7, 2020 - Médicos britânicos do sexo masculino que fumaram tabaco em 1951 tiveram um risco 30% menor de morte por doença de Parkinson, mostrou uma análise de dados do British Doctors Study.

Além disso, os médicos que continuaram a fumar ao longo dos anos tiveram um risco 40% menor de mortalidade por Parkinson, relataram Robert Clarke, MD, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, e co-autores.

Como mostrado em seu estudo on-line em Neurology, o risco de mortalidade de Parkinson foi inversamente associado à quantidade de tabaco fumado e, para aqueles que pararam de fumar, o efeito foi atenuado com o aumento do tempo desde que eles pararam.

As descobertas surgiram de 65 anos de acompanhamento com quase 30.000 médicos do sexo masculino na Grã-Bretanha e não devem ser interpretadas para promover o tabagismo, mas para promover um olhar mais atento sobre por que o tabagismo continua associado ao menor risco de Parkinson, disse Clarke.

"O tabagismo atual é a principal causa de morte prematura e incapacidade em todo o mundo, e esses riscos excederiam em muito os efeitos benéficos do tabagismo atual no risco da doença de Parkinson", escreveu Clarke em um e-mail ao MedPage Today.

O relatório "demonstra um efeito causalmente protetor do tabagismo atual sobre o risco da doença de Parkinson", continuou ele. Embora o mecanismo subjacente não seja claro, "a explicação mais provável é que o teor de nicotina na fumaça do tabaco pode ter propriedades protetoras, possivelmente estimulando a liberação de dopamina, mas os efeitos de outros componentes do tabaco não podem ser excluídos", acrescentou.

Os pesquisadores propuseram pela primeira vez que fumar pode reduzir o risco de Parkinson há 60 anos, observaram Yuan Cheng, MD, e Yan-Jiang Wang, MD, ambos do Daping Hospital da Terceira Universidade Médica Militar em Chongqing, China, em um editorial que o acompanha.

"Desde então, evidências crescentes sugerem que o tabagismo, que é uma das principais causas de mortes prematuras e um fator de risco para quase todas as outras doenças não transmissíveis, está associado a um risco reduzido de doença de Parkinson esporádica", escreveram Cheng e Wang. "No entanto, a relação causal entre o tabagismo e o risco da doença de Parkinson permanece incerta devido às limitações inerentes a estudos retrospectivos e número insuficiente de casos ou duração inadequada de acompanhamento nos estudos prospectivos anteriores".

Clarke e colegas avaliaram dados de 29.737 médicos britânicos do British Doctors Study, excluindo aqueles com diagnóstico pré-existente da doença de Parkinson. Um questionário inicial foi enviado a médicos registrados em 1951 e seis pesquisas foram enviadas entre 1958 e 1998, com taxas de resposta variando entre 94% e 98%. A mortalidade por causa específica foi seguida até dezembro de 2016.

Os pesquisadores excluíram os primeiros 10 anos de acompanhamento das análises para minimizar o viés de causalidade reversa. Os médicos que se retiraram antes do final do estudo ou foram perdidos para acompanhamento foram incluídos até a ausência e depois censurados.

A cada pesquisa, a prevalência de tabagismo diminuía entre médicos de todas as idades. O tabagismo atual caiu de 67% em 1951 para 8% em 1998 entre médicos de 65 a 69 anos, por exemplo.

Excluindo os primeiros 10 anos de acompanhamento, foram relatadas 25.379 mortes no estudo. Destes, 283 (1,1%) tinham a doença de Parkinson listada como causa subjacente de morte. Os médicos que morreram de Parkinson foram acompanhados por 42 anos em média e morreram com idade média de 82 anos. Os médicos que morreram de outras causas foram acompanhados por 35 anos em média e morreram com idade média de 77 anos.

Os médicos que fumavam no início do estudo apresentaram um risco 30% menor de morte por doença de Parkinson (RR 0,71, IC 95% 0,60-0,84), em comparação com os médicos que nunca fumaram. Os fumantes continuados tiveram um risco 40% menor (RR 0,60, IC 95% 0,46-0,77) do que os nunca fumantes.

O acompanhamento longo, o grande número e as altas taxas de resposta foram fortes neste estudo, observaram os editorialistas, observando que a análise foi baseada apenas em 283 pessoas com doença de Parkinson como causa subjacente da morte e a incidência geral de Parkinson provavelmente foi subestimada. Os critérios e a precisão do diagnóstico da doença de Parkinson também mudaram ao longo do tempo, o que pode ter confundido os resultados, acrescentaram Cheng e Wang.

"Apesar dessas limitações, os resultados deste estudo apóiam os efeitos protetores do tabagismo no risco de doença de Parkinson", escreveram os editorialistas. "Os resultados, no entanto, não fornecem um mecanismo pelo qual esse efeito ocorre, por isso é prematuro supor que exista uma relação causal direta entre o uso do tabaco e um risco reduzido da doença de Parkinson". Original em inglês, tradução Google, revisão Hugo. Fonte: Med Page Today. Veja mais aqui: Tobacco smoking and the risk of Parkinson disease: A 65-year follow-up of 30,000 male British doctors, e aqui: Tobacco Smoking May Lower Risk for Parkinson Disease While Increasing the Risk of Other Illnesses.

Em 2017 foi postado no blog Doença de Parkinson, notícia sobre o tratamento com nicotina procedido pelo Dr Gabriel Villafane, em Paris. Apresentou resultados promissores, e foi interrompido, tendo sido banido o médico dos ensaios, que foram encerrados.  Suponho termos aí mais uma teoria da conspiração dos big labs.