200726 - Casos que surgem antes da faixa etária mais comum podem ter explicação no DNA; exames especializados ajudam a compreender a origem da doença, orientar o diagnóstico e abrir caminhos para uma medicina cada vez mais personalizada
Quando se fala em doença de Parkinson, a imagem mais comum é a de uma pessoa idosa convivendo com tremores e dificuldade para caminhar. De fato, a idade é o principal fator de risco para a doença, mas essa não é toda a história.
Embora a maioria dos diagnósticos ocorra após os 60 anos, estimativas variam entre 5% e 20% dos casos de Parkinson com início antes dos 50 anos,a chamada doença de Parkinson de início precoce (do inglês early-onset Parkinson's disease, EOPD), dependendo da população estudada e do corte de idade utilizado. O Instituto Nacional do Envelhecimento dos Estados Unidos (NIA) estima essa faixa entre 5% e 10%, enquanto a American Parkinson Disease Association e a The Michael J. Fox Foundation apontam números entre 10% e 20%, com cerca de metade desses casos diagnosticados antes dos 40 anos.
Uma revisão publicada em 2025 na revista científica Current Neurology and Neuroscience Reports reuniu as evidências mais recentes sobre essa forma da doença, descrevendo a EOPD (definida no estudo como início entre 21 e 50 anos) como uma condição com maior prevalência de fatores de risco monogênicos, distonia focal, depressão e ansiedade em comparação com a forma de início tardio, além de progressão motora mais lenta, menor declínio cognitivo e maior risco de atraso no diagnóstico.
“Mais do que antecipar o aparecimento da doença, compreender essas alterações genéticas tem ajudado pesquisadores a entender melhor os mecanismos biológicos envolvidos no Parkinson e a desenvolver estratégias mais precisas para diagnóstico, acompanhamento e, futuramente, tratamento”, comenta o Dr. Jorge Pinto Basto, Vice-presidente de Genética Médica da CENTOGENE.
O Parkinson é hoje classificado como o distúrbio neurológico de crescimento mais rápido no mundo. Um estudo de modelagem publicado em março de 2025 no The BMJ, com base em dados do Global Burden of Disease Study, estimou que o número de pessoas convivendo com a doença passou de cerca de 11,9 milhões em 2021 para uma projeção de 25,2 milhões em 2050, um aumento de 112%, impulsionado principalmente pelo envelhecimento populacional.
Uma doença diferente daquela que imaginamos
O Parkinson é uma doença neurodegenerativa caracterizada pela perda progressiva de neurônios produtores de dopamina, neurotransmissor essencial para o controle dos movimentos. Os sintomas motores, como tremor em repouso, rigidez muscular, lentidão dos movimentos e alterações do equilíbrio, são os mais conhecidos, mas a doença também pode provocar manifestações não motoras, como alterações do sono, perda do olfato, ansiedade, depressão e constipação intestinal, muitas vezes anos antes do diagnóstico.
Quando a doença surge antes dos 50 anos, entretanto, ela costuma apresentar um comportamento diferente. Segundo a revisão publicada em Current Neurology and Neuroscience Reports, pacientes com início precoce tendem a apresentar progressão motora mais lenta e menor risco de declínio cognitivo em comparação aos casos de início tardio, ao mesmo tempo em que enfrentam maior risco de diagnóstico tardio e desafios específicos relacionados ao trabalho, à vida familiar e ao impacto psicossocial de um diagnóstico em plena fase produtiva da vida.
"Embora o Parkinson continue sendo uma doença multifatorial, sabemos hoje que os casos de início precoce apresentam uma participação genética significativamente maior do que aqueles diagnosticados em idades mais avançadas. Isso muda a forma como investigamos esses pacientes e amplia nossa compreensão sobre os mecanismos da doença", explica o especialista.
Quando a genética faz diferença
Na maior parte dos pacientes, o Parkinson resulta da interação entre fatores genéticos e ambientais. No entanto, quando os sintomas aparecem precocemente, especialmente antes dos 50 anos e, mais ainda, antes dos 40, cresce a probabilidade de existir uma alteração genética associada.
Nas últimas décadas, pesquisadores identificaram diversos genes relacionados ao desenvolvimento da doença. Entre os mais estudados na forma de início precoce estão PRKN (Parkin), PINK1, DJ-1 (PARK7), LRRK2, GBA e SNCA, envolvidos em processos essenciais para o funcionamento e a sobrevivência dos neurônios. Variantes no gene PRKN, por exemplo, são consideradas uma das causas genéticas mais comuns de Parkinson de início precoce, segundo dados compilados pela base de referência GeneReviews, da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos (NCBI).
Esses genes participam de mecanismos como a eliminação de proteínas defeituosas, o funcionamento das mitocôndrias, responsáveis pela produção de energia celular, e a degradação da alfa-sinucleína, proteína cuja agregação é considerada uma das principais marcas biológicas do Parkinson.
A revisão da Current Neurology and Neuroscience Reports reforça ainda que variantes genéticas monogênicas são encontradas com maior frequência em pacientes com Parkinson de início precoce do que na população geral com Parkinson, o que sustenta a importância da investigação genética nesse grupo, ainda que, como recomenda o grupo de estudos EOPD da International Parkinson and Movement Disorder Society (MDS) citado na mesma revisão, seja preciso antes descartar causas tratáveis de parkinsonismo, como a doença de Wilson, por meio de ressonância magnética e exames laboratoriais.
"Identificar uma variante genética não significa apenas colocar um nome na doença. Essa informação pode esclarecer a causa do quadro clínico, orientar o aconselhamento genético da família, contribuir para decisões médicas mais individualizadas e, em alguns casos, permitir o acesso a estudos clínicos direcionados para determinados perfis moleculares", afirma o Dr. Jorge Pinto Basto.
Diagnóstico ainda costuma demorar
Reconhecer o Parkinson em pessoas mais jovens ainda representa um desafio. Como a doença costuma ser associada ao envelhecimento, ela frequentemente não é considerada entre as primeiras hipóteses diagnósticas nessa faixa etária. Segundo a The Michael J. Fox Foundation, pessoas com Parkinson de início precoce costumam percorrer uma jornada mais longa até o diagnóstico correto, muitas vezes passando por diversos médicos e exames antes de chegar à conclusão correta.
"O diagnóstico continua sendo essencialmente clínico, baseado na avaliação neurológica e no histórico do paciente. A genética não substitui essa avaliação, mas pode acrescentar informações importantes quando existe suspeita de formas hereditárias ou quando o quadro clínico apresenta características incomuns", explica o especialista.
Quem deve considerar uma investigação genética?
Nem toda pessoa com doença de Parkinson precisa realizar um teste genético. A decisão deve ser individualizada e levar em conta a história clínica, os antecedentes familiares e as características da doença.
De modo geral, a investigação pode ser importante em pacientes cujo quadro sugere uma maior probabilidade de uma causa hereditária, como:
pessoas diagnosticadas em idade jovem, especialmente quando os primeiros sintomas surgem antes dos 50 anos;
indivíduos com histórico familiar de doença de Parkinson ou de outros distúrbios do movimento;
pacientes com manifestações clínicas atípicas ou evolução incomum da doença;
casos em que a confirmação de uma causa genética pode contribuir para o aconselhamento familiar ou para a participação em estudos clínicos.
"Nesses cenários, a avaliação genética não serve apenas para esclarecer a origem da doença. Ela pode fornecer informações importantes para o aconselhamento do paciente e de seus familiares, além de ampliar o acesso a pesquisas e, no futuro, a terapias cada vez mais direcionadas", afirma.
O futuro passa pela medicina de precisão
Mais do que confirmar um diagnóstico, a genética vem ajudando a redefinir a forma como o Parkinson é estudado. Hoje, pesquisadores entendem que a doença provavelmente não representa uma única condição, mas diferentes subtipos biológicos, cada um influenciado por mecanismos moleculares distintos. Essa nova visão tem impulsionado pesquisas em biomarcadores, inteligência artificial e terapias direcionadas a alterações genéticas específicas.
Nos últimos anos, estudos internacionais passaram a investigar medicamentos capazes de atuar sobre mecanismos como o acúmulo de alfa-sinucleína, a disfunção lisossomal e os processos inflamatórios associados à neurodegeneração, uma estratégia que busca não apenas controlar sintomas, mas modificar a evolução da doença.
"Estamos caminhando para uma neurologia cada vez mais personalizada. À medida que compreendemos melhor a biologia do Parkinson, deixamos de enxergar todos os pacientes da mesma forma e passamos a identificar perfis moleculares que poderão orientar tanto o diagnóstico quanto futuras estratégias terapêuticas. Esse é um dos maiores avanços da medicina de precisão aplicada às doenças neurodegenerativas", conclui o Dr. Jorge Pinto Basto. Fonte: folhadepiracicaba.


