sexta-feira, 31 de julho de 2026

Entre remédio e veneno, a nicotina desafia conclusões precipitadas

31 de julho de 2026 - Um pó preparado com folhas secas, administrado por via nasal para aliviar a cefaleia. Foi essa a novidade que o diplomata francês Jean Nicot enviou de Lisboa, em 1560, a Catarina de Médici, mãe do rei Francisco II, para tratar suas recorrentes crises de migrânea. O tabaco, recém-chegado da América, ganhou prestígio na Europa, apelidado de “erva-da-rainha”, dando início a uma trajetória que transformou o remédio na principal epidemia evitável da história.

Em homenagem a Nicot, o gênero botânico da planta de tabaco passou a se chamar Nicotiana. Séculos depois, quando os químicos Wilhelm Heinrich Posselt e Karl Ludwig Reimann isolaram seu principal alcaloide, em 1828, o chamaram de nicotina. A substância associada ao tabagismo carrega o nome de quem a apresentou ao mundo como remédio.

A novidade do francês era antiga conhecida neste lado do Atlântico. A América do Sul concentra a maior diversidade do gênero Nicotiana e é considerada seu principal centro de origem, com  evidências de uso humano que remontam a 12.300 anos atrás. A espécie mais cultivada, a Nicotiana tabacum, tem origem nas regiões que hoje correspondem à Bolívia e ao Peru, a partir de onde se disseminou pelo continente.

Quando os europeus chegaram, encontraram o tabaco integrado ao cotidiano de praticamente todos os povos indígenas. Era fumado, mascado, aspirado ou utilizado em infusões, desempenhando papel central nas práticas de cura, nos rituais religiosos e na organização social. Na América portuguesa, cronistas do século XVI registraram esses usos com detalhes. No seu Tratado descritivo do Brasil em 1587, Gabriel Soares de Sousa relata que os colonos aprenderam com os indígenas a utilizar o petume — ou erva-santa em Portugal — para tratar chagas e eliminar larvas em feridas. Jean de Léry, que viveu entre os tupinambá na região da Baía de Guanabara, registrou que os indígenas nunca se encontravam sem o charuto de tabaco. O jesuíta Fernão Cardim foi mais direto: segundo ele, tanto nativos quanto portugueses eram completamente perdidos pela erva, passando "todo o dia e a noite deitados nas redes a beber fumo".

Os usos medicinais documentados incluíam analgesia em casos de dor de dente e artralgia, ação antiparasitária em feridas, antissepsia, aplicação como repelente de insetos e consumo para suprimir fome e sede em longas jornadas. O que os europeus registravam como ritual tinha, em muitos casos, base farmacológica real. A ciência levaria séculos para entender o que esses povos já sabiam.

A revolução industrial do tabaco

Na Europa, porém, o tabaco chegou como produto de luxo. Por décadas, o consumo permaneceu limitado pela escassez da planta e pelo preparo artesanal. Isso mudou em 1881, quando o estadunidense James Bonsack patenteou uma máquina capaz de produzir cerca de 120 mil cigarros por dia, aproximadamente 13 vezes mais do que um trabalhador conseguia enrolar no mesmo período. A inovação reduziu drasticamente os custos de produção. Nas décadas seguintes, publicidade agressiva, distribuição de cigarros a soldados durante as duas guerras mundiais e campanhas que associavam o hábito à modernidade consolidaram um mercado global. O cigarro industrializado não era apenas mais barato e acessível — era também o modo de uso mais eficiente já criado para uma substância que atua no sistema de recompensa do cérebro.

Após cada tragada, a nicotina alcança o cérebro em poucos segundos e se liga aos  receptores nicotínicos de acetilcolina, estruturas que participam de funções como atenção, aprendizagem, memória e controle motor. Ao ativá-los, a substância desencadeia a liberação de dopamina no sistema de recompensa cerebral, o mesmo circuito envolvido no reforço de comportamentos essenciais para a sobrevivência, como comer e beber. Com a exposição repetida, o cérebro se adapta. São necessários, então, níveis cada vez maiores de nicotina para produzir o mesmo efeito, enquanto a interrupção do consumo passa a desencadear irritabilidade, ansiedade, dificuldade de concentração e fissura intensa. "A dependência resulta de adaptações neurobiológicas que tornam extremamente difícil interromper o consumo, mesmo quando a pessoa conhece todos os riscos associados ao cigarro", afirma a toxicologista Dra. Ingrid Dragan Taricano. 

O impacto desse processo foi devastador. Estima-se que o tabagismo tenha causado cerca de 100 milhões de mortes ao longo do século XX e continue sendo responsável por mais de 7 milhões de óbitos por ano em todo o mundo. Mesmo quando recebem o tratamento considerado mais eficaz, que inclui associação entre medicamentos para cessação e apoio comportamental, apenas cerca de um em cada quatro tabagistas permanece abstinente após um ano.

"A fumaça entra pelas vias respiratórias superiores e alcança os pulmões. Dali, muitos desses compostos atravessam a barreira pulmonar, entram na circulação e são distribuídos para praticamente todo o organismo. Parte deles é metabolizada no fígado, outra permanece circulando por diferentes tecidos, o que amplia o potencial de exposição de vários órgãos aos agentes carcinogênicos", explica o oncologista Dr. Helano Freitas, líder do Centro de Referência em Tumores de Pulmão e Tórax do A.C.Camargo Cancer Center. Esse mecanismo explica a associação do tabagismo não apenas com o câncer de pulmão, mas também com tumores de boca, faringe, laringe, esôfago, pâncreas, rim e bexiga.

A frase que mudou as perguntas científicas

Em 1976, o psiquiatra britânico Dr. Michael Russell resumiu décadas de observações clínicas em uma frase que continua sendo citada meio século depois: "As pessoas fumam pela nicotina, mas morrem pelo alcatrão".

A afirmação não pretendia absolver o cigarro. Ela chamava a atenção para algo que começava a emergir na literatura científica: a dependência e as principais doenças relacionadas ao tabagismo não decorrem do mesmo mecanismo biológico. Enquanto a nicotina é a principal responsável por reforçar o comportamento tabagista, a fumaça gerada pela combustão do tabaco concentra milhares de substâncias químicas, entre elas alcatrão, monóxido de carbono e dezenas de compostos carcinogênicos, que respondem pela maior parte dos danos cardiovasculares, respiratórios e oncológicos associados ao cigarro.

"Russell foi um dos primeiros pesquisadores a formular essa distinção de maneira clara. Ela mudou a forma como a comunidade científica pensava a dependência do tabaco e abriu caminho para o desenvolvimento das terapias de reposição de nicotina", afirma o Dr. Konstantinos Farsalinos, médico e pesquisador especializado no tema.

Se fosse possível fornecer nicotina sem expor o tabagista aos produtos da combustão, talvez fosse possível reduzir o sofrimento causado pela abstinência. Ao separar a molécula de nicotina da fumaça do cigarro, Dr. Michael Russell abriu caminho para o estudo da substância isolada e, assim, para a possibilidade de transformar em evidência científica parte do que os povos indígenas das Américas já conheciam por observação empírica há milênios.

Entre o empírico e as evidências 

Relatos históricos mostram que diferentes povos utilizavam o tabaco para aliviar dor de dente, cefaleia e artralgia. Durante muito tempo, essas descrições permaneceram apenas como registros etnográficos. Nas últimas décadas, porém, estudos em humanos demonstraram que a administração aguda de nicotina produz  efeito analgésico mensurável, aumentando o limiar e a tolerância à dor, resultado  confirmado em 2023. O fenômeno decorre da ativação de receptores nicotínicos de acetilcolina no sistema nervoso e da modulação de mecanismos inflamatórios em processos que envolvem o receptor α7 nicotínico de acetilcolina.

Jean de Léry registrou no século XVI que alguns indígenas permaneciam longos períodos sem se alimentar após utilizar tabaco. O relato parecia exagerado para muitos historiadores, mas em 2011 pesquisadores publicaram na Science o mecanismo exato: a nicotina ativa neurônios POMC no hipotálamo, região responsável pela regulação da saciedade, desencadeando vias neurais que reduzem a necessidade de ingestão alimentar.


Quanto ao alívio das crises migranosas de Catarina de Médici, as pesquisas são incertas. Uma revisão publicada no Headache Journal em 2015 concluiu que a nicotina é fator desencadeante de cefaleia e deve ser evitada em programas de tratamento da migrânea. Outros estudos relatam efeito oposto: melhora de cefaleia após uso agudo da substância, com mecanismo proposto de vasoconstrição. A ambiguidade persiste sem resolução, e a primeira indicação medicinal que deu nome à molécula continua sendo, quase 500 anos depois, a menos compreendida.

Os indígenas também esfregavam folhas de tabaco na pele e fumegavam os arredores para afastar insetos e eliminar potenciais parasitas. Essa propriedade fez da nicotina um dos primeiros inseticidas orgânicos sistematicamente usados na agricultura moderna, amplamente utilizado na horticultura europeia até ser banido no início do século XXI por toxicidade a abelhas. Hoje, os neonicotinoides, a classe de inseticidas mais usada no planeta, são seus derivados sintéticos, desenvolvidos para manter a eficácia, mas com menor toxicidade para mamíferos.

"Quando analisamos a nicotina isoladamente, percebemos que ela tem efeitos farmacológicos próprios, alguns deles conhecidos há décadas pela farmacologia experimental. Isso não significa que o cigarro seja um medicamento, mas ajuda a entender por que a molécula desperta tanto interesse científico", explica o Dr. Bernhard-Michael Mayer, farmacologista e toxicologista da Universidade de Graz, na Áustria.

A descoberta de que os receptores nicotínicos de acetilcolina estão presentes em diferentes tecidos do organismo ampliou os horizontes da pesquisa. Pesquisadores passaram a se perguntar o que acontece quando esses receptores são ativados em contextos muito além da dependência.

Uma das primeiras pistas surgiu da epidemiologia.  Estudos mostram há décadas que grupos de tabagistas apresentam menor incidência de doença de Parkinson do que pessoas que nunca fumaram. A associação despertou interesse, porque a nicotina pode modular receptores envolvidos na sobrevivência de neurônios dopaminérgicos e influenciar vias relacionadas à neuroinflamação. Plausibilidade biológica, porém, não é sinônimo de eficácia clínica.  Os ensaios clínicos não demonstraram benefício consistente da nicotina na prevenção nem no tratamento da doença.

A pesquisa sobre o declínio cognitivo seguiu caminho semelhante. Em 2012, um  estudo-piloto com 74 pessoas com comprometimento cognitivo leve mostrou melhora em testes de atenção e memória após seis meses de uso de adesivos transdérmicos de nicotina. O resultado motivou o estudo  MIND, financiado pelo National Institutes of Health (NIH) dos Estados Unidos. Durante dois anos, participantes utilizaram adesivos de nicotina com dose titulada até 21 mg por dia. Em dezembro de 2025, os pesquisadores divulgaram os  resultados: em comparação com o placebo, o tratamento não retardou a perda de memória nem a progressão do comprometimento cognitivo.

Um estudo publicado recentemente no Nicotine & Tobacco Research mostrou que o uso de nicotina aumentou a  memória de trabalho e os níveis plasmáticos de BDNF em humanos. A distinção é clinicamente relevante: a nicotina produz efeito cognitivo real no curto prazo, mas esse efeito não se traduz em proteção contra o declínio progressivo característico do comprometimento cognitivo leve.

Na colite ulcerativa, a observação de partida foi clínica: tabagistas têm menor risco de apresentar a doença, e alguns pacientes relatam piora dos sintomas após interromper o tabagismo. Um dos mecanismos propostos envolve a  via colinérgica anti-inflamatória: a ativação do receptor nicotínico α7 reduz a produção de citocinas pró-inflamatórias, como TNF-α e IL-1β.  Ensaios clínicos com adesivos transdérmicos observaram melhora em parte dos pacientes com doença ativa leve a moderada, mas os resultados foram heterogêneos e os efeitos adversos, frequentes. A nicotina não integra o tratamento recomendado nas diretrizes atuais.

Pesquisadores levantaram a hipótese de que a proteína spike do SARS-CoV-2 interagiria com receptores nicotínicos de acetilcolina, especialmente o subtipo α7, contribuindo para a neuroinflamação observada na covid-19 longa. Pequenos estudos clínicos passaram a avaliar o uso de adesivos transdérmicos nesses pacientes, mas até o momento não há evidências clínicas robustas de benefício.

"O fato de uma molécula apresentar efeitos biológicos interessantes não significa que ela se tornará um medicamento. Entre identificar um mecanismo e demonstrar benefício clínico existe um caminho longo que depende de estudos cuidadosamente conduzidos", explica a Dra. Ingrid.

Nada inocente

Em sua 11ª edição, a Classificação Internacional de Doenças (CID-11) abandonou o termo "dependência de tabaco" para adotar uma denominação mais precisa: dependência de nicotina. A mudança reconhece que a substância é o centro do problema — e não a planta.

Os efeitos cardiovasculares imediatos são reais. Ao estimular o sistema nervoso simpático, a nicotina promove a liberação de norepinefrina, aumenta a frequência cardíaca, eleva a pressão arterial e provoca vasoconstrição, efeitos que costumam durar cerca de 20 minutos após cada exposição. A situação muda quando se analisam formas de administração contínua, como a terapia de reposição de nicotina. Embora provoque elevação transitória da frequência cardíaca e da pressão arterial, as evidências não demonstraram aumento de complicações cardiovasculares graves com a terapia de reposição, mesmo em pacientes com doença coronariana estável. O risco cardiovascular depende da forma de exposição, da dose e do contexto clínico.

0Em oncologia, talvez nenhuma confusão seja tão frequente. Até o momento, não há evidências de que a nicotina seja carcinogênica em seres humanos. A molécula não figura entre os agentes classificados como carcinogênicos pela International Agency for Research on Cancer (IARC), que atribui o aumento do risco de câncer ao tabagismo, à fumaça do tabaco e aos compostos gerados durante a combustão, e não à nicotina isoladamente.

O Dr. Helano chama a atenção para um mecanismo menos conhecido. A nicotina reduz o tônus do esfíncter entre o esôfago e o estômago, favorecendo episódios repetidos de refluxo gastroesofágico. Essa agressão crônica à mucosa esofágica pode contribuir para o surgimento de a,denocarcinoma de esôfago, tumor cuja incidência tem crescido nas últimas décadas.

Estudos pré-clínicos sugerem que a nicotina pode interferir em processos relacionados à progressão de tumores já estabelecidos, como proliferação celular, angiogênese e resistência à apoptose. Até o momento, porém, esses achados não se traduziram em evidências clínicas consistentes. "Não existem evidências clínicas robustas que justifiquem contraindicar a terapia de reposição de nicotina para pacientes que precisam parar de fumar durante o tratamento do câncer", afirma o cirurgião oncológico Dr. Edgard Mesquita, do corpo clínico dos hospitais Sírio-Libanês e Albert Einstein, em São Paulo.

Como tratar a dependência de nicotina

A  terapia de reposição de nicotina continua sendo uma das principais estratégias disponíveis. Adesivos, gomas, pastilhas, sprays nasais e inaladores fornecem a molécula sem expor o paciente aos produtos tóxicos da combustão do tabaco.

Um dos erros mais comuns na prática clínica é prescrever apenas uma formulação. As diretrizes recomendam, para muitos pacientes, a  terapia combinada: um adesivo de liberação prolongada para manter níveis basais associado a uma formulação de ação rápida, como goma ou pastilha, para controlar episódios de fissura. Em comparação com a monoterapia, essa estratégia aumenta as taxas de cessação. Outro problema frequente é a orientação insuficiente: bebidas e alimentos ácidos, entre eles o café, reduzem a absorção da nicotina pela goma, comprometendo o tratamento.

Entre os medicamentos disponíveis, a  vareniclina permanece como a opção isolada mais eficaz. Agonista parcial dos receptores nicotínicos α4β2, ela reduz os sintomas de abstinência e diminui o efeito recompensador do cigarro. Sua trajetória, porém, inclui um capítulo de estigmatização injusta. Em 2009, a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA incluiu na embalagem do medicamento um alerta para possíveis eventos neuropsiquiátricos graves, como transtorno depressivo e ideação suicida. Com isso, a prescrição caiu drasticamente.

O cenário mudou em 2016, após a publicação do  estudo EAGLES, o maior ensaio clínico já realizado para avaliar a segurança neuropsiquiátrica dos medicamentos para cessação do tabagismo. Com mais de 8 mil participantes, incluindo pacientes com doença psiquiátrica estável, o estudo mostrou que a incidência de eventos neuropsiquiátricos graves no grupo que usou vareniclina não foi significativamente maior do que com placebo. A FDA retirou o alerta no mesmo ano. 

Os pesquisadores observaram ainda que pacientes com transtornos psiquiátricos apresentaram maior frequência de eventos adversos em todos os grupos avaliados, inclusive entre os que receberam placebo, sugerindo que parte desse risco estava relacionada à própria doença de base e ao processo de abstinência. Hoje, a vareniclina é considerada opção segura para pacientes com doença psiquiátrica estável, desde que acompanhados adequadamente. Seus efeitos adversos mais comuns continuam sendo náuseas, frequentemente minimizadas quando o medicamento é ingerido após as refeições, além de insônia e sonhos vívidos.

Para pacientes com maior dependência, a  combinação vareniclina + reposição de nicotina mostrou eficácia superior a qualquer monoterapia em metanálise publicada em 2025. O custo é um perfil de efeitos adversos ligeiramente maior: náuseas, reações cutâneas e alterações do sono são mais frequentes na combinação do que em qualquer monoterapia.

A vareniclina mostrou em abril de 2025 outro resultado relevante. Um  ensaio clínico randomizado publicado no JAMA testou o medicamento especificamente para tratar dependência de vape em jovens e adultos jovens. Os resultados mostraram abstinência de 51% no grupo vareniclina versus 14% no placebo em 12 semanas. É o primeiro dado robusto de eficácia de farmacoterapia para cessação do uso de vape. No entanto, mesmo com o melhor arsenal disponível, três em cada quatro pacientes não conseguem parar.

Sem combustão

Se o que mata é a fumaça, e não a nicotina, seria possível reduzir os danos desse uso administrando nicotina inalada mas sem a combustão do tabaco?

Foi essa lógica que sustentou o desenvolvimento dos dispositivos eletrônicos para fumar. Sem combustão, deixam de ser produzidos monóxido de carbono, hidrocarbonetos policíclicos aromáticos e boa parte dos compostos reconhecidamente carcinogênicos presentes na fumaça do cigarro convencional.

Os resultados, porém, mostram um cenário menos linear do que se imaginava. Um estudo publicado em 2025 no JAMA Network Open, que analisou dados de mais de 6 mil tabagistas norte-americanos com ajuste rigoroso para fatores de confusão, encontrou que o uso de vape estava associado a taxas de cessação significativamente menores do que entre fumantes que não vapavam. Tanto usuários diários quanto ocasionais apresentaram menor probabilidade de abandonar completamente o cigarro, sugerindo manutenção da dependência de nicotina.

Os dispositivos atuais utilizam, em sua maioria, sais de nicotina que fornecem concentrações elevadas da substância com menor irritação das vias respiratórias. "Muitos desses dispositivos entregam uma concentração de nicotina superior à de um maço inteiro de cigarros comuns", afirma a pneumologista Dra. Maria Cecília Maiorano, doutora pela Universidade de São Paulo (USP).

Dados do  Levantamento Nacional de Álcool e Drogas mostram que o uso dual é frequente entre usuários de cigarros eletrônicos, mantendo a exposição aos produtos da combustão enquanto aumenta a carga total de nicotina. "O vape não funciona como estratégia de cessação", afirma a psicóloga Dra. Clarice Sandi Madruga, doutora e pós-doutora em psiquiatria e psicologia médica pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com colaboração no King's College London. O Reino Unido, frequentemente citado como referência em políticas de redução de danos, endureceu recentemente sua regulamentação após o crescimento expressivo do uso entre adolescentes.

No Brasil, a discussão regulatória avança. Em junho deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) iniciou consulta pública sobre produtos fumígenos à base de nicotina, como bolsas e sachês que liberam a substância pela mucosa oral sem combustão e sem tabaco, refletindo o crescimento do interesse pelo tema no país.

Estudos de longo prazo começam a preencher parte da lacuna de evidências. Uma  análise longitudinal da Johns Hopkins Medicine, nos EUA, publicada em 2025 com quase quatro anos de acompanhamento, mostrou que o uso exclusivo de cigarros eletrônicos está associado ao surgimento de doença pulmonar obstrutiva crônica e, possivelmente, hipertensão. Não foram encontradas associações com complicações cardiovasculares graves no período estudado, mas os autores alertam que o acompanhamento ainda é insuficiente para conclusões definitivas. Uma  revisão sistemática publicada no Tobacco Control reforça que o uso prolongado do vape pode exigir tratamento específico: intervenções farmacológicas, aconselhamento e estratégias educacionais aumentam as taxas de abandono do dispositivo.

A questão não se encerra aí. A revisão Cochrane mais recente, publicada em 2025, encontrou evidência de alta certeza de que cigarros eletrônicos ajudam fumantes a abandonar o cigarro com mais frequência do que a terapia de reposição de nicotina convencional. Em números absolutos: se seis em cada 100 pessoas param de fumar com TRN, entre oito e doze param com cigarros eletrônicos com nicotina.

Em um cenário estritamente controlado, a substituição completa do cigarro convencional por um dispositivo eletrônico de boa qualidade, com líquido padronizado, concentração conhecida de nicotina e ausência de contaminantes, tende a reduzir a exposição aos produtos tóxicos gerados pela combustão do tabaco. "Nessas condições, é possível dizer que o cigarro eletrônico provavelmente oferece menos riscos do que continuar fumando cigarros convencionais", afirma a pneumologista Dra. Maria Cecília Maiorano, doutora pela Universidade de São Paulo.

A especialista ressalta, porém, que esse cenário raramente corresponde ao uso observado na prática. Dispositivos e líquidos apresentam grande variabilidade de qualidade e composição, muitos produtos circulam sem fiscalização adequada e fatores como potência do aparelho, temperatura de aquecimento, tipo de líquido e padrão de uso modificam a quantidade de substâncias potencialmente tóxicas inaladas. Além disso, o uso dual permanece frequente, mantendo a exposição aos produtos da combustão e reduzindo ou anulando qualquer benefício potencial da redução de danos.

"Mesmo nesse cenário ideal, redução de danos não significa ausência de risco. O vape mantém a dependência da nicotina e já existem evidências de inflamação das vias aéreas e alterações cardiovasculares. Além disso, como esses produtos são relativamente recentes, ainda não dispomos de estudos que acompanhem seus usuários por décadas para determinar com precisão seus efeitos de longo prazo", afirma a Dra. Maria Cecília. Para fumantes que não conseguem abandonar o cigarro com as terapias convencionais, a substituição completa pelo cigarro eletrônico pode representar menor exposição a alguns compostos tóxicos, mas não deve ser interpretada como uma alternativa segura. 

A única indicação terapêutica estabelecida para a nicotina continua sendo o tratamento do tabagismo. Para quem nunca fumou, não há evidências que justifiquem seu uso em qualquer modalidade. Para o fumante que não conseguiu parar com as estratégias disponíveis, a decisão exige julgamento clínico informado por evidência. Não há protocolo, nem certezas. Apenas tentativas de, caso a caso, lidar com um problema que a medicina ainda não resolveu completamente. Fonte: medscape.

Eficácia e segurança do transplante de microbiota fecal na doença de Parkinson: uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados com avaliação GRADE

 31 de julho de 2026 – Resumo

Contexto

A doença de Parkinson (DP) é uma doença neurodegenerativa comum que representa um desafio crescente para a saúde pública. Evidências recentes demonstraram que a disbiose da microbiota intestinal está envolvida na patogênese da DP, despertando interesse no transplante de microbiota fecal (TMF) como uma possível intervenção capaz de modificar o curso da doença. Esta revisão sistemática e meta-análise visa avaliar a eficácia e a segurança do TMF em pacientes com DP.

Métodos

Realizamos uma revisão sistemática da literatura utilizando as bases de dados PubMed, Scopus, Web of Science e Cochrane Library até 4 de junho de 2026, para identificar ensaios clínicos randomizados (ECRs) que comparassem o TMF com placebo ou intervenções de controle na DP. Após a remoção de duplicatas e a triagem de títulos e resumos, seguida pela análise dos textos completos, sete ensaios clínicos randomizados foram incluídos nesta revisão sistemática e meta-análise.

Resultados

Foram analisados ​​sete ensaios clínicos randomizados (ECRs) envolvendo 318 participantes. O TMF foi administrado por meio de cápsulas orais, sondas nasojejunais ou colonoscopia, com períodos de acompanhamento variando de 12 a 52 semanas. A meta-análise indicou uma melhora notável a curto prazo nas atividades motoras diárias, avaliada pela escala MDS-UPDRS Parte II, após um mês (diferença média de -transplante de microbiota fecal (TMF)2,19; intervalo de confiança de 95%: -4,32 a -0,06; P = 0,044). No entanto, não foram observadas estimativas significativas para a MDS-UPDRS Parte III, pontuações agregadas da MDS-UPDRS, complicações motoras, sintomas não motores ou qualidade de vida geral em nenhum dos períodos avaliados. Alguns estudos individuais relataram ganhos na capacidade cognitiva, redução da ansiedade, melhora na qualidade de vida relacionada à constipação e em certas categorias do questionário PDQ-39, embora essas melhorias não tenham sido observadas de forma uniforme. De modo geral, o TMF foi bem tolerado pelos participantes; as reações adversas consistiram principalmente em problemas gastrointestinais leves e autolimitados, sem riscos graves de segurança. 

Conclusões

O FMT é um tratamento seguro para indivíduos com DP e pode oferecer vantagens modestas a curto prazo na execução de tarefas motoras diárias. No entanto, as evidências atuais não indicam melhorias duradouras nas capacidades motoras globais, nos sintomas não motores ou na qualidade de vida. São necessários estudos mais abrangentes e com poder estatístico adequado, utilizando procedimentos de FMT padronizados e períodos de observação mais longos, para esclarecer os benefícios terapêuticos do FMT na doença de Parkinson. Fonte: springer.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Trân­sito rui­doso pode aumen­tar risco de Par­kin­son, indica estudo

29 Julho 2026 - Ex­po­si­ção pro­lon­ga­da ao ru­í­do do trân­si­to ro­do­vi­á­rio foi as­so­ci­a­da a um mai­or ris­co de do­en­ça de Par­kin­son, pos­si­vel­men­te de­vi­do à per­tur­ba­ção do so­no e ao stress sis­té­mi­co, in­di­ca um no­vo es­tu­do.

In­ves­ti­ga­do­res di­na­mar­que­ses ana­li­sa­ram mais de três mi­lhões de re­si­den­tes pa­ra de­ter­mi­nar se o ru­í­do per­sis­ten­te em di­fe­ren­tes zo­nas re­si­den­ci­ais e ori­en­ta­ções das ca­sas au­men­ta o ris­co des­ta do­en­ça neu­ro­de­ge­ne­ra­ti­va.

O es­tu­do, pu­bli­ca­do na re­vis­ta JA­MA Neu­ro­logy (fon­te em in­glês), acom­pa­nhou mais de três mi­lhões de di­na­mar­que­ses en­tre 2000 e 2017, com pe­lo me­nos 40 anos e sem do­en­ça de Par­kin­son no iní­cio da in­ves­ti­ga­ção.

Por ca­da au­men­to de cer­ca de 11 de­ci­béis (dB) no ru­í­do na fa­cha­da mais ex­pos­ta de uma ha­bi­ta­ção, o ris­co de do­en­ça de Par­kin­son su­biu cer­ca de 3%, con­clu­í­ram os in­ves­ti­ga­do­res. Na fa­cha­da mais si­len­ci­o­sa da ca­sa, a me­nos ex­pos­ta ao trân­si­to, o ris­co de do­en­ça de Par­kin­son au­men­tou 4% por ca­da acrés­ci­mo de 9 dB de ru­í­do.

Ao mes­mo tem­po, o es­tu­do con­cluiu que um la­do si­len­ci­o­so, em que uma das fa­cha­das da ca­sa é pe­lo me­nos 10 dB mais si­len­ci­o­sa do que a ou­tra, fun­ci­o­na co­mo uma bar­rei­ra de pro­te­ção que po­de ate­nu­ar es­tes efei­tos no­ci­vos, so­bre­tu­do pa­ra quem vi­ve com ní­veis glo­bais de ru­í­do mais ele­va­dos.

As pes­so­as que não têm um la­do si­len­ci­o­so en­fren­tam um ní­vel de ru­í­do mais per­sis­ten­te e ine­vi­tá­vel, so­bre­tu­do du­ran­te a noi­te, al­go que os au­to­res con­si­de­ram mais pre­ju­di­ci­al. Os au­to­res do es­tu­do acres­cen­tam que tra­ba­lhos an­te­ri­o­res que ape­nas ana­li­sa­ram o la­do mais rui­do­so de uma ca­sa po­dem ter su­bes­ti­ma­do os ris­cos pa­ra a sa­ú­de, por não ava­li­a­rem se os re­si­den­tes dis­põem de um es­pa­ço mais si­len­ci­o­so pa­ra on­de se re­fu­gi­a­rem. Os re­sul­ta­dos mos­tra­ram-se con­sis­ten­tes in­de­pen­den­te­men­te do se­xo, es­co­la­ri­da­de, ren­di­men­to, si­tu­a­ção de co­a­bi­ta­ção e den­si­da­de po­pu­la­ci­o­nal.

Co­mo o ru­í­do afe­ta o ris­co de do­en­ça de Par­kin­son?

Os au­to­res su­ge­rem que es­tes re­sul­ta­dos são bi­o­lo­gi­ca­men­te plau­sí­veis, por­que o ru­í­do cró­ni­co po­de per­tur­bar o so­no, es­sen­ci­al pa­ra a sa­ú­de ce­re­bral, e tam­bém de­sen­ca­de­ar uma res­pos­ta de stress no or­ga­nis­mo.

Po­de ain­da pro­vo­car “neu­ro­in­fla­ma­ção” e stress oxi­da­ti­vo no cé­re­bro, em par­ti­cu­lar nas áre­as re­la­ci­o­na­das com a pro­du­ção de do­pa­mi­na.

A do­en­ça de Par­kin­son é a se­gun­da do­en­ça neu­ro­de­ge­ne­ra­ti­va mais co­mum a ní­vel mun­di­al, afe­tan­do mais de 11 mi­lhões de pes­so­as, de acor­do com in­ves­ti­ga­ção re­cen­te, um far­do que de­ve­rá mais do que du­pli­car nas pró­xi­mas dé­ca­das, à me­di­da que a es­pe­ran­ça de vi­da au­men­ta e al­guns pa­í­ses re­gis­tam cres­ci­men­to po­pu­la­ci­o­nal.

Na do­en­ça de Par­kin­son, as cé­lu­las ner­vo­sas do cé­re­bro, os cha­ma­dos neu­ró­ni­os, de­gra­dam-se ou mor­rem len­ta­men­te. Mui­tos sin­to­mas re­sul­tam da per­da de neu­ró­ni­os pro­du­to­res de do­pa­mi­na, o que le­va a uma ati­vi­da­de ce­re­bral ir­re­gu­lar.

A cau­sa exa­ta da do­en­ça é des­co­nhe­ci­da e, atu­al­men­te, não exis­te cu­ra.

“Por is­so, iden­ti­fi­car fa­to­res am­bi­en­tais po­ten­ci­al­men­te mo­di­fi­cá­veis é uma pri­o­ri­da­de de sa­ú­de pú­bli­ca”, afir­mou Fer­nan­do Alon­so Fre­ch, neu­ro­lo­gis­ta e in­ves­ti­ga­dor no HM CI­NAC Com­prehen­si­ve Neu­ros­ci­en­ce Cen­ter, que não par­ti­ci­pou no es­tu­do. Acres­cen­tou que a ele­va­da pro­por­ção da po­pu­la­ção ex­pos­ta ao ru­í­do do trân­si­to sig­ni­fi­ca que o im­pac­to po­ten­ci­al na sa­ú­de pú­bli­ca po­de ser con­si­de­rá­vel.

“Nes­te con­tex­to, os re­sul­ta­dos re­for­çam a im­por­tân­cia de po­lí­ti­cas des­ti­na­das a re­du­zir a po­lu­i­ção so­no­ra ur­ba­na, atra­vés de es­tra­té­gi­as co­mo o pla­ne­a­men­to ur­ba­no, a cri­a­ção de bar­rei­ras acús­ti­cas, a re­du­ção do trá­fe­go em zo­nas re­si­den­ci­ais ou o de­se­nho de ha­bi­ta­ções com fa­cha­das e es­pa­ços de re­pou­so me­nos ex­pos­tos ao ru­í­do.” Fonte: pressreader.

sábado, 25 de julho de 2026

Confirmada a morte de Ozzy Osbourne: ícone do heavy metal faleceu de parada cardíaca aos 76 anos





25 de julho de 2026 - Ozzy Osbourne, o lendário vocalista do Black Sabbath — cuja voz inconfundível e personalidade marcante ajudaram a definir o heavy metal para gerações —, faleceu em 22 de julho de 2025, aos 76 anos. Registros recém-divulgados confirmaram que o músico pioneiro morreu em decorrência de uma parada cardíaca ocorrida fora de um ambiente hospitalar, tendo a doença arterial coronariana e a doença de Parkinson como fatores contribuintes.

A confirmação esclarece as circunstâncias da morte de Osbourne, que gerou uma grande comoção entre fãs, colegas músicos e celebridades de todo o mundo. As homenagens celebraram a carreira extraordinária do cantor, sua influência no rock e no heavy metal, e sua resiliência diante de anos de desafios de saúde.

Segundo registros oficiais, Osbourne sofreu uma parada cardíaca fora de uma unidade de saúde. A documentação médica também apontou a doença arterial coronariana e a doença de Parkinson como condições subjacentes significativas que contribuíram para o seu falecimento.

Osbourne havia falado abertamente sobre seus problemas de saúde nos últimos anos. Em 2020, revelou ter sido diagnosticado com doença de Parkinson e, posteriormente, passou por várias cirurgias após uma queda grave que agravou lesões decorrentes de um acidente anterior com quadriciclo. Apesar da saúde debilitada, manteve-se determinado a continuar conectado aos fãs e a trabalhar em música sempre que possível.

Poucas semanas antes de morrer, Osbourne subiu ao palco pela última vez durante o show de despedida do Black Sabbath em sua cidade natal, Birmingham. Apresentando-se ao lado de seus companheiros de banda de longa data, o evento emocionante marcou o fim de uma era para um dos grupos mais influentes da história do rock. Os fãs descreveram a apresentação como uma despedida à altura do artista amplamente conhecido como o "Príncipe das Trevas".

Nascido John Michael Osbourne em 3 de dezembro de 1948, em Birmingham, Inglaterra, Ozzy alcançou fama internacional como vocalista do Black Sabbath após a formação da banda em 1968. Álbuns como *Paranoid*, *Master of Reality*, *Vol. 4* e *Sabbath Bloody Sabbath* ajudaram a consolidar o heavy metal como uma força musical global, com os vocais marcantes de Osbourne tornando-se uma das sonoridades definidoras do gênero. Após deixar o Black Sabbath em 1979, Osbourne iniciou uma carreira solo de enorme sucesso, produzindo canções icônicas como "Crazy Train", "Mr. Crowley", "Bark at the Moon" e "No More Tears". Esse êxito solo consolidou sua reputação como um dos artistas mais duradouros do rock, enquanto sua influência inspirou inúmeros músicos de várias gerações.

Além da música, Osbourne conquistou um novo público com o reality show de sucesso da MTV, *The Osbournes*, que ofereceu aos fãs um olhar franco sobre sua vida em família ao lado de sua esposa e empresária de longa data, Sharon Osbourne, e de seus filhos. O programa apresentou a lenda do rock a milhões de pessoas que talvez não conhecessem seu legado musical, reforçando ainda mais seu lugar na cultura popular.

Após a notícia de sua morte, homenagens chegaram de todo o mundo do entretenimento. Músicos, atores, atletas e líderes políticos celebraram as contribuições pioneiras de Osbourne para a música e seu impacto duradouro na cultura popular. Fãs se reuniram em locais emblemáticos ligados ao Black Sabbath em Birmingham, deixando flores, velas e mensagens escritas à mão em memória do homem que ajudou a moldar a sonoridade do heavy metal.

Osbourne deixa a esposa, Sharon, filhos e netos. A família pediu privacidade enquanto lamenta a perda de um marido, pai e avô cuja influência se estendeu muito além dos palcos.

Embora sua voz tenha se calado, o legado de Ozzy Osbourne permanece vivo por meio de um catálogo musical que transformou a história do rock. Como vocalista pioneiro do Black Sabbath e um dos maiores artistas solo do heavy metal, ele deixa uma obra que continuará a inspirar músicos e fãs por gerações. Fonte: cussonapplenews.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Quando os remédios para Parkinson perdem o efeito: entenda o fenômeno “Off” e as discinesias

20 de julho de 2026 - Entenda o fenômeno Off na doença de Parkinson, por que os remédios perdem efeito, as discinesias e opções avançadas como cirurgia de DBS. Saiba como recuperar controle e qualidade de vida.

A doença de Parkinson é uma condição neurodegenerativa que afeta milhões de pessoas, impactando profundamente a capacidade de realizar movimentos fluidos e a qualidade de vida diária. No início, os medicamentos, especialmente a levodopa, costumam oferecer um controle excelente dos sintomas. No entanto, com o tempo, muitos pacientes notam que esses remédios parecem “perder a força”. Surgem períodos em que os sintomas retornam de forma intensa, conhecidos como fenômeno “Off”, e movimentos involuntários chamados discinesias.

Como neurocirurgião funcional especializado em distúrbios do movimento, neuromodulação e tratamento da dor, vejo diariamente como essas complicações transformam a rotina de pacientes e famílias. Este artigo explica de forma clara o que acontece no cérebro, por que isso ocorre, como identificar e gerenciar esses problemas, e quando considerar opções avançadas como a estimulação cerebral profunda (cirurgia de DBS). O foco não é apenas informar, mas empoderar você a buscar o melhor caminho para maior funcionalidade e bem-estar, integrando o cuidado com sintomas motores e a dor frequentemente associada.

O que é a Doença de Parkinson e como os sintomas evoluem 

A Doença de Parkinson é uma das condições neurodegenerativas mais comuns e, ao mesmo tempo, uma das mais complexas em sua evolução. Embora muitas pessoas associem a doença apenas ao tremor, ela vai muito além de um simples distúrbio de movimento. Compreender como ela se instala e progride no cérebro é essencial para entender por que, com o passar dos anos, os medicamentos que inicialmente controlam bem os sintomas começam a apresentar limitações, dando origem ao fenômeno “Off” e às discinesias.

A base neurológica: perda de dopamina 

A Doença de Parkinson resulta principalmente da degeneração progressiva de células produtoras de dopamina na substância negra do mesencéfalo. A dopamina atua como um neurotransmissor essencial para a regulação fina dos movimentos nos gânglios da base. Sem ela em quantidades adequadas, os circuitos cerebrais ficam desequilibrados, gerando tremor em repouso, rigidez muscular, bradicinesia (lentidão) e instabilidade postural.

Além dos sintomas motores, a doença traz sintomas não motores, como dor crônica (neuropática ou musculoesquelética), distúrbios do sono, alterações de humor, constipação e problemas cognitivos. Essa visão integrada é fundamental, pois o tratamento ideal considera o paciente como um todo.

Fases iniciais: boa resposta aos medicamentos 

Nos primeiros anos, a reposição de dopamina com levodopa ou outros agonistas dopaminérgicos costuma ser muito eficaz. Os pacientes experimentam períodos “On”, com boa mobilidade e controle dos sintomas. Fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia complementam o tratamento, ajudando a manter independência e qualidade de vida.

O fenômeno “Off”: quando os remédios perdem o efeito 

Com o avanço da Doença de Parkinson, um dos maiores desafios enfrentados pelos pacientes é a perda gradual de eficácia dos medicamentos. O que antes proporcionava um controle estável dos sintomas passa a apresentar falhas, resultando no chamado fenômeno “Off”. Esses períodos de retorno dos sintomas podem ser súbitos, intensos e imprevisíveis, marcando uma fase importante na evolução da doença.

Entender o que é o fenômeno “Off”, por que ele ocorre e como impacta o dia a dia é fundamental para diferenciar a progressão natural da doença das complicações do tratamento. 

O que é o Fenômeno “Off” e suas manifestações 

O fenômeno “Off” refere-se aos períodos em que o efeito dos medicamentos diminui ou termina antes da próxima dose, fazendo os sintomas motores voltarem com intensidade. O paciente pode sentir rigidez intensa, lentidão extrema, tremor acentuado, dificuldade para andar (freezing of gait) ou instabilidade que aumenta o risco de quedas. Esses episódios podem durar de minutos a horas e tornam-se imprevisíveis com a progressão da doença.

Diferente dos sintomas iniciais, os “Off” não respondem mais de forma consistente à medicação. Isso ocorre porque o cérebro perde progressivamente a capacidade de armazenar e liberar dopamina de maneira estável. As flutuações motoras (“on-off”) são uma das principais queixas que levam pacientes a buscarem avaliações especializadas.

Por que isso acontece: mecanismos no cérebro 

Com o avanço da neurodegeneração, restam cada vez menos neurônios dopaminérgicos. A levodopa, precursora da dopamina, depende desses neurônios para ser convertida e liberada de forma controlada. Quando eles diminuem, a liberação torna-se pulsátil, gerando altos e baixos nos níveis de dopamina no cérebro. Fatores como dieta (proteínas competem com a absorção da levodopa), estresse, infecções ou variações no esvaziamento gástrico agravam as flutuações.

Além disso, alterações em outros neurotransmissores e circuitos (glutamato, serotonina, etc.) contribuem para a complexidade. Pacientes relatam não só piora motora, mas também dor mais intensa durante os períodos “Off”, reforçando a necessidade de uma abordagem que una neuromodulação para movimento e manejo da dor.

Impacto na qualidade de vida e no dia a dia 

Imagine planejar o dia em torno das doses de medicamento, temendo um “Off” durante uma reunião, passeio ou tarefa simples como se vestir. Muitos pacientes reduzem atividades sociais, enfrentam ansiedade e dependência crescente. Familiares também sofrem com o impacto emocional e prático. Reconhecer esses sinais cedo permite intervenções que preservam a autonomia.

Discinesias: movimentos involuntários causados pelos remédios 

Enquanto o fenômeno “Off” representa a perda de efeito dos medicamentos, as discinesias surgem no polo oposto: são movimentos involuntários provocados pelo próprio tratamento prolongado. Essas duas complicações frequentemente caminham juntas e representam os maiores desafios no manejo a longo prazo da Doença de Parkinson.

O que são discinesias e seus tipos 

Discinesias são movimentos involuntários, coreiformes (semelhantes a dança) ou distônicos, que surgem tipicamente como efeito colateral do uso prolongado de levodopa. Elas ocorrem mais nos períodos “On” (discinesias de pico de dose) ou durante transições. Podem afetar face, tronco, membros ou o corpo todo, interferindo em atividades e causando constrangimento ou fadiga.

Causas e fatores de risco 

A sensibilização dos receptores dopaminérgicos remanescentes leva a respostas exageradas e oscilantes à medicação. Quanto maior a dose cumulativa e o tempo de doença, maior o risco. Pacientes mais jovens ao diagnóstico tendem a desenvolver discinesias mais precocemente. Outros fatores incluem dose alta de levodopa e flutuações graves.

Importante: discinesias não são sinal de piora da doença em si, mas de complicações do tratamento medicamentoso. Elas destacam a necessidade de equilibrar controle sintomático com minimização de efeitos adversos.

Como discinesias e fenômeno Off se relacionam 

Muitas vezes coexistem. Para evitar “Off”, o paciente aumenta ou fraciona doses, o que pode intensificar discinesias. Esse ciclo vicioso limita as opções medicamentosas e afeta significativamente a qualidade de vida, motivando a busca por estratégias avançadas.

Estratégias de manejo: além dos remédios para Parkinson convencionais 

Ajustes medicamentosos e terapias complementares 

Neurologistas otimizam regimes com agonistas de liberação prolongada, inibidores de COMT ou MAO-B, ou formulações de levodopa intestinal contínua (bomba de duodopa). Fisioterapia específica para equilíbrio e marcha, junto com terapia cognitivo-comportamental para aspectos não motores, ajudam. No entanto, quando flutuações e discinesias tornam-se incapacitantes apesar da otimização, é hora de avaliar opções cirúrgicas.

O papel da dor no Parkinson e integração com neuromodulação 

Muitos pacientes com Parkinson vivenciam dor crônica, que pode piorar nos “Off” ou ser independente. A expertise em neuromodulação permite abordar tanto os distúrbios do movimento quanto a dor, promovendo uma recuperação mais completa da funcionalidade e alegria de viver. Técnicas como estimulação medular ou periférica complementam o cuidado em casos selecionados. 

Cirurgia de DBS: uma solução avançada para flutuações e discinesias 

Como a cirurgia de DBS atua nos “Off” e discinesias 

A Estimulação Cerebral Profunda (cirurgia de DBS) implanta eletrodos em alvos como núcleo subtalâmico (STN) ou globo pálido interno (GPi) para modular circuitos anormais de forma contínua e ajustável. Não cura a doença nem repõe dopamina, mas regulariza os padrões de atividade cerebral, reduzindo flutuações motoras, tempo “Off” e discinesias. Muitos pacientes conseguem reduzir significativamente a dose de levodopa, aliviando os efeitos colaterais.

Indicações, processo e benefícios 

Indicada para pacientes com boa resposta prévia à levodopa, doença de Parkinson comprovada e sintomas refratários. A avaliação multidisciplinar garante seleção criteriosa. O procedimento, minimamente invasivo com neuronavegação, permite testes intraoperatórios para otimização. Pós-operatório inclui programação não invasiva ajustável ao longo do tempo.

Benefícios podem incluir maior tempo “On” sem discinesias, melhor mobilidade, independência e qualidade de vida. Integra-se perfeitamente à expertise em neurocirurgia funcional e dor, oferecendo controle holístico.

Riscos, recuperação e acompanhamento 

Como todo procedimento, há riscos baixos (infecção, sangramento, efeitos de estimulação ajustáveis). A reversibilidade e a programabilidade são grandes vantagens. Recuperação é relativamente rápida, com acompanhamento vitalício para ajustes e substituição de bateria quando necessário. 

Vivendo com Parkinson: estratégias para o longo prazo e esperança 

O fenômeno “Off” e as discinesias representam desafios, mas não o fim da linha. Com diagnóstico precoce, manejo multidisciplinar e, quando necessário, intervenções como a cirurgia de DBS, é possível manter ou recuperar controle significativo. O foco está sempre em devolver funcionalidade, reduzir sofrimento (incluindo dor) e promover uma vida plena.

Cada paciente é único. Se você ou um familiar enfrenta flutuações motoras, discinesias ou sente que os remédios não controlam mais os sintomas como antes, uma avaliação especializada pode abrir novas possibilidades de tratamento.

A neurocirurgia funcional oferece recursos que muitos pacientes ainda desconhecem. Uma avaliação especializada pode mostrar se algum deles se aplica ao seu caso. Fonte: medicalservices.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Parkinson antes dos 50 anos: o que a genética pode revelar sobre a doença

200726 - Casos que surgem antes da faixa etária mais comum podem ter explicação no DNA; exames especializados ajudam a compreender a origem da doença, orientar o diagnóstico e abrir caminhos para uma medicina cada vez mais personalizada

Quando se fala em doença de Parkinson, a imagem mais comum é a de uma pessoa idosa convivendo com tremores e dificuldade para caminhar. De fato, a idade é o principal fator de risco para a doença, mas essa não é toda a história.

Embora a maioria dos diagnósticos ocorra após os 60 anos, estimativas variam entre 5% e 20% dos casos de Parkinson com início antes dos 50 anos,a chamada doença de Parkinson de início precoce (do inglês early-onset Parkinson's disease, EOPD), dependendo da população estudada e do corte de idade utilizado. O Instituto Nacional do Envelhecimento dos Estados Unidos (NIA) estima essa faixa entre 5% e 10%, enquanto a American Parkinson Disease Association e a The Michael J. Fox Foundation apontam números entre 10% e 20%, com cerca de metade desses casos diagnosticados antes dos 40 anos. 

Uma revisão publicada em 2025 na revista científica Current Neurology and Neuroscience Reports reuniu as evidências mais recentes sobre essa forma da doença, descrevendo a EOPD (definida no estudo como início entre 21 e 50 anos) como uma condição com maior prevalência de fatores de risco monogênicos, distonia focal, depressão e ansiedade em comparação com a forma de início tardio, além de progressão motora mais lenta, menor declínio cognitivo e maior risco de atraso no diagnóstico.

“Mais do que antecipar o aparecimento da doença, compreender essas alterações genéticas tem ajudado pesquisadores a entender melhor os mecanismos biológicos envolvidos no Parkinson e a desenvolver estratégias mais precisas para diagnóstico, acompanhamento e, futuramente, tratamento”, comenta o Dr. Jorge Pinto Basto, Vice-presidente de Genética Médica da CENTOGENE.

O Parkinson é hoje classificado como o distúrbio neurológico de crescimento mais rápido no mundo. Um estudo de modelagem publicado em março de 2025 no The BMJ, com base em dados do Global Burden of Disease Study, estimou que o número de pessoas convivendo com a doença passou de cerca de 11,9 milhões em 2021 para uma projeção de 25,2 milhões em 2050, um aumento de 112%, impulsionado principalmente pelo envelhecimento populacional.

Uma doença diferente daquela que imaginamos

O Parkinson é uma doença neurodegenerativa caracterizada pela perda progressiva de neurônios produtores de dopamina, neurotransmissor essencial para o controle dos movimentos. Os sintomas motores, como tremor em repouso, rigidez muscular, lentidão dos movimentos e alterações do equilíbrio, são os mais conhecidos, mas a doença também pode provocar manifestações não motoras, como alterações do sono, perda do olfato, ansiedade, depressão e constipação intestinal, muitas vezes anos antes do diagnóstico.

Quando a doença surge antes dos 50 anos, entretanto, ela costuma apresentar um comportamento diferente. Segundo a revisão publicada em Current Neurology and Neuroscience Reports, pacientes com início precoce tendem a apresentar progressão motora mais lenta e menor risco de declínio cognitivo em comparação aos casos de início tardio, ao mesmo tempo em que enfrentam maior risco de diagnóstico tardio e desafios específicos relacionados ao trabalho, à vida familiar e ao impacto psicossocial de um diagnóstico em plena fase produtiva da vida.

"Embora o Parkinson continue sendo uma doença multifatorial, sabemos hoje que os casos de início precoce apresentam uma participação genética significativamente maior do que aqueles diagnosticados em idades mais avançadas. Isso muda a forma como investigamos esses pacientes e amplia nossa compreensão sobre os mecanismos da doença", explica o especialista.

Quando a genética faz diferença

Na maior parte dos pacientes, o Parkinson resulta da interação entre fatores genéticos e ambientais. No entanto, quando os sintomas aparecem precocemente, especialmente antes dos 50 anos e, mais ainda, antes dos 40, cresce a probabilidade de existir uma alteração genética associada.

Nas últimas décadas, pesquisadores identificaram diversos genes relacionados ao desenvolvimento da doença. Entre os mais estudados na forma de início precoce estão PRKN (Parkin), PINK1, DJ-1 (PARK7), LRRK2, GBA e SNCA, envolvidos em processos essenciais para o funcionamento e a sobrevivência dos neurônios. Variantes no gene PRKN, por exemplo, são consideradas uma das causas genéticas mais comuns de Parkinson de início precoce, segundo dados compilados pela base de referência GeneReviews, da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos (NCBI).

Esses genes participam de mecanismos como a eliminação de proteínas defeituosas, o funcionamento das mitocôndrias, responsáveis pela produção de energia celular, e a degradação da alfa-sinucleína, proteína cuja agregação é considerada uma das principais marcas biológicas do Parkinson.

A revisão da Current Neurology and Neuroscience Reports reforça ainda que variantes genéticas monogênicas são encontradas com maior frequência em pacientes com Parkinson de início precoce do que na população geral com Parkinson, o que sustenta a importância da investigação genética nesse grupo, ainda que, como recomenda o grupo de estudos EOPD da International Parkinson and Movement Disorder Society (MDS) citado na mesma revisão, seja preciso antes descartar causas tratáveis de parkinsonismo, como a doença de Wilson, por meio de ressonância magnética e exames laboratoriais.

"Identificar uma variante genética não significa apenas colocar um nome na doença. Essa informação pode esclarecer a causa do quadro clínico, orientar o aconselhamento genético da família, contribuir para decisões médicas mais individualizadas e, em alguns casos, permitir o acesso a estudos clínicos direcionados para determinados perfis moleculares", afirma o Dr. Jorge Pinto Basto. 

Diagnóstico ainda costuma demorar

Reconhecer o Parkinson em pessoas mais jovens ainda representa um desafio. Como a doença costuma ser associada ao envelhecimento, ela frequentemente não é considerada entre as primeiras hipóteses diagnósticas nessa faixa etária. Segundo a The Michael J. Fox Foundation, pessoas com Parkinson de início precoce costumam percorrer uma jornada mais longa até o diagnóstico correto, muitas vezes passando por diversos médicos e exames antes de chegar à conclusão correta.

"O diagnóstico continua sendo essencialmente clínico, baseado na avaliação neurológica e no histórico do paciente. A genética não substitui essa avaliação, mas pode acrescentar informações importantes quando existe suspeita de formas hereditárias ou quando o quadro clínico apresenta características incomuns", explica o especialista.

Quem deve considerar uma investigação genética?

Nem toda pessoa com doença de Parkinson precisa realizar um teste genético. A decisão deve ser individualizada e levar em conta a história clínica, os antecedentes familiares e as características da doença.

De modo geral, a investigação pode ser importante em pacientes cujo quadro sugere uma maior probabilidade de uma causa hereditária, como:

pessoas diagnosticadas em idade jovem, especialmente quando os primeiros sintomas surgem antes dos 50 anos;

indivíduos com histórico familiar de doença de Parkinson ou de outros distúrbios do movimento;

pacientes com manifestações clínicas atípicas ou evolução incomum da doença;

casos em que a confirmação de uma causa genética pode contribuir para o aconselhamento familiar ou para a participação em estudos clínicos.

"Nesses cenários, a avaliação genética não serve apenas para esclarecer a origem da doença. Ela pode fornecer informações importantes para o aconselhamento do paciente e de seus familiares, além de ampliar o acesso a pesquisas e, no futuro, a terapias cada vez mais direcionadas", afirma.

O futuro passa pela medicina de precisão

Mais do que confirmar um diagnóstico, a genética vem ajudando a redefinir a forma como o Parkinson é estudado. Hoje, pesquisadores entendem que a doença provavelmente não representa uma única condição, mas diferentes subtipos biológicos, cada um influenciado por mecanismos moleculares distintos. Essa nova visão tem impulsionado pesquisas em biomarcadores, inteligência artificial e terapias direcionadas a alterações genéticas específicas.

Nos últimos anos, estudos internacionais passaram a investigar medicamentos capazes de atuar sobre mecanismos como o acúmulo de alfa-sinucleína, a disfunção lisossomal e os processos inflamatórios associados à neurodegeneração, uma estratégia que busca não apenas controlar sintomas, mas modificar a evolução da doença.

"Estamos caminhando para uma neurologia cada vez mais personalizada. À medida que compreendemos melhor a biologia do Parkinson, deixamos de enxergar todos os pacientes da mesma forma e passamos a identificar perfis moleculares que poderão orientar tanto o diagnóstico quanto futuras estratégias terapêuticas. Esse é um dos maiores avanços da medicina de precisão aplicada às doenças neurodegenerativas", conclui o Dr. Jorge Pinto Basto. Fonte: folhadepiracicaba.


sexta-feira, 10 de julho de 2026

A STEM-PD anuncia os primeiros resultados de ensaios clínicos em humanos para terapia celular da doença de Parkinson

9 de julho de 2026 - A STEM-PD anuncia os primeiros resultados de ensaios clínicos em humanos para terapia celular da doença de Parkinson

Estudo testa transplante de células como tratamento para Parkinson

100726 - Em um estudo preliminar com oito pacientes, cientistas demonstraram a segurança do procedimento, feito com tecido embrionário reprogramado para se transformar em neurônios. Há um longo caminho antes da aplicação clínica, mas autores estão otimistas

Caracterizada pela morte gradual de células produtoras de dopamina, a doença de Parkinson causa sintomas como espasmos, perda de equilíbrio e rigidez muscular - (crédito: Rawpixel/Divulgação )


Durante décadas, o tratamento da doença de Parkinson se concentrou em amenizar os sintomas provocados pela perda progressiva dos neurônios fabricantes da substância dopamina, o que é feito, atualmente, com o uso de medicamentos. Agora, um estudo com humanos aponta para uma nova linha terapêutica: substituir as células cerebrais destruídas por estruturas novas de origem embrionária, programadas geneticamente para produzir o neurotransmissor naturalmente.

Estudo testa transplante de células como tratamento para Parkinson

Em um estudo preliminar com oito pacientes, cientistas demonstraram a segurança do procedimento, feito com tecido embrionário reprogramado para se transformar em neurônios. Há um longo caminho antes da aplicação clínica, mas autores estão otimistas

Para enfrentar essas limitações, pesquisadores da Inglaterra, da Suécia e dos Estados Unidos testaram a segurança do transplante, no cérebro, de neurônios produtores de dopamina, derivados de células-tronco embrionárias. Como ainda é um estudo inicial, a pesquisa, publicada na revista Nature Medicine e apresentada ontem no congresso da reunião anual da Sociedade Internacional para Pesquisa com Células-Tronco, em Montreal, no Canadá, foi realizada com apenas oito pacientes, acompanhados durante um ano. Segundo os cientistas, o procedimento mostrou-se viável, abrindo caminho para investigações com um número maior de pessoas. 

Marco

“A possibilidade de substituir os neurônios dopaminérgicos perdidos na doença de Parkinson tem sido um objetivo de longa data na área”, disse Malin Parmar, professora de neurociência celular na Universidade de Lund, na Suécia, e líder do estudo. “As descobertas representam um marco importante para as abordagens da medicina regenerativa na doença de Parkinson e apoiam o desenvolvimento clínico contínuo de terapias baseadas em células-tronco.” 

No estudo, oito pacientes da doença neurodegenerativa receberam o produto celular transplantado em duas doses diferentes, seguido por 12 meses de imunossupressão para prevenir a rejeição do enxerto. Sete participantes completaram o acompanhamento e um morreu devido a uma infecção pulmonar não diretamente relacionada ao procedimento. Segundo os autores, o processo cirúrgico foi bem tolerado, sem efeitos colaterais importantes. 

Exames de imagem utilizando um marcador da produção de dopamina mostraram aumento da atividade justamente nas regiões onde as células haviam sido implantadas, especialmente entre os pacientes que receberam a dose mais elevada do enxerto. Para os pesquisadores, isso indica que parte das células transplantadas sobreviveu e começou a funcionar.  

Sintomas

Em relação aos sintomas, os resultados foram mais modestos. Alguns pacientes apresentaram melhora da função motora, outros permaneceram estáveis e a maioria conseguiu reduzir a dose diária de medicamentos antiparkinsonianos. Seis dos sete voluntários acompanhados durante um ano diminuíram a quantidade de remédios utilizada.

“Esperamos que esse seja o início de um novo e empolgante programa que poderá, em última análise, beneficiar toda a comunidade de pacientes com Parkinson”, afirmou, em nota, Roger Barker, professor de neurociência clínica da Universidade de Cambridge, líder clínico e investigador principal clínico no centro do Reino Unido.  

Hoje, estima-se que mais de 8,5 milhões de pessoas vivam com Parkinson no mundo, número que pode ultrapassar 12 milhões até 2040. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), trata-se da doença neurológica que mais cresce em prevalência e incapacidade nas últimas décadas. No Brasil, há cerca de meio milhão de pacientes diagnosticados, com cerca de 36 mil novos casos anualmente. 

Embriões

Embora no estudo os testes tenham sido feitos com células-tronco de embriões humanos, os autores acreditam que futuramente será possível utilizar estruturas retiradas da pele ou do sangue do próprio paciente e reprogramadas para se especializaram na produção de dopamina. Além do trabalho descrito ontem, há equipes nos Estados Unidos, no Japão e na Coreia do Sul trabalhando com diferentes tipos celulares para se especializarem em neurônios dopaminérgicos. 

 “O maior desafio para a terapia celular autóloga (que usa células do próprio paciente) tem sido o desenvolvimento de métodos confiáveis para qualificar as células de cada paciente para o tratamento”, explica Jeanne Loring, pesquisadora do Scripps Research, nos Estados Unidos. Segundo a pesquisadora, abordagens de análise genômica que identificam possíveis mutações futuras têm sido aplicadas para tornar o procedimento cada vez mais personalizado.

O novo estudo, porém, é preliminar e há um longo caminho para confirmar as descobertas, alertam especialistas. “Apesar de a pesquisa trazer esperança, a gente ainda está longe de falar que isso é uma terapia que vai ser aplicada na prática clínica. Ainda há várias etapas, pois esses primeiros estudos estão na fase de avaliar a segurança do tratamento, ou seja, para avaliar se essas células-tronco não serão transformadas em células malignas e tumorais. Essa é uma das principais preocupações, além de complicações a longo prazo, que podem até piorar os sintomas da doença de Parkinson”, observa a médica neurologista Luciana Mendonça Barbosa, professora da Universidade Católica de Brasília (UCB).

A docente lembra que há outros dois estudos preliminares sobre o transplante de células dopaminérgicas que demonstraram a segurança. “Esse terceiro mostra que o tratamento, de fato, é seguro ao longo de um ano. Os cientistas vão acompanhar os pacientes por mais três anos, então teremos mais dados sobre ele”, diz. 

Mesmo com as limitações da fase atual, Jeanne Loring diz que está otimista. “Sabemos há décadas que o transplante de neurônios dopaminérgicos jovens pode reverter os sintomas da doença de Parkinson quando as células apropriadas são utilizadas. Se essas descobertas se confirmarem ao longo do tempo, esperamos observar melhorias significativas na qualidade de vida, que continuarão a aumentar à medida que as células transplantadas amadurecem”, explica. 

Palavra de especialista

O estudo representa um grande avanço em relação à possibilidade de se implantar células-tronco do próprio paciente no cérebro, com segurança. O fato de os cientistas terem demonstrado que essas células-tronco sobreviveram é muito interessante. Elas não só sobreviveram, mas realmente se mostraram funcionais: conseguiram produzir dopamina sem complicações, como hemorragias e formação de tumores. Porém, na prática, ainda não é algo com utilidade clínica imediata — até agora, o objetivo era demonstrar a segurança. Pode ser que, na continuidade desse estudo, descubram-se maneiras de obter uma eficácia clínica maior. A ciência tem vários desafios na evolução desse tipo de pesquisa. O primeiro foi provar que é possível diferenciar uma célula-tronco de um paciente para que ela produza dopamina e implantá-la no cérebro com segurança. O próximo desafio é comprovar essa segurança com um número maior de pacientes e entender se haverá um benefício clínico que justifique a complexidade do procedimento. 

Bruno Brujaili, neurocirugião do Hospital Sírio-Libanês de São Paulo, especialista em doença de Parkinson 

Duas perguntas para

Carlos Uribe, neurologista do Hospital Brasília, da Rede Américas 

O estudo representa uma mudança de paradigma no tratamento do Parkinson?

Sim, é uma possibilidade. Atualmente, o tratamento de sintomas motores e não motores para a doença de Parkinson é de reposição, seja de dopamina ou de outros neurotransmissores que podem estar alterados no cérebro do paciente. No caso dos motores, os sintomas são tratados com a reposição da dopamina, que vai agir exatamente nessa via nigroestretal (feixe de neurônios dopaminérgicos que conecta a substância negra ao corpo estriado) que está deficiente e que provoca os sintomas de rigidez, tremor e lentidão de movimentos. Esse estudo, que é ainda preliminar, está na fase 1 e 2, em humanos, ainda precisa ser confirmado com pesquisas mais abrangentes. Mas realmente o que foi descrito é uma nova estratégia de tratamento. Se isso for confirmado em estudos maiores, os pacientes precisarão de doses menores de dopamina para atingir o mesmo efeito de melhora nos sintomas, comparado aos medicamentos atuais. 

Quais são os principais desafios científicos antes que uma terapia celular como essa possa ser oferecida na prática clínica?

Para chegar até a prática clínica, ainda há um caminho longo a ser percorrido, mas o primeiro passo foi dado, realmente os resultados são animadores e agora deve ser confirmado em populações maiores, além de ser controlado com placebo. Quando se comparar o tratamento descrito no estudo com um procedimento que não coloque as células produtoras de dopamina no cérebro, ou que implante outro tipo de celular que não produz a substância, aí vai se confirmar se realmente a intervenção que está sendo feita é o que provoca a melhora sintomática desses pacientes. Isso deve levar vários anos ainda, mais de cinco, pelo menos, para a gente conseguir chegar numa resposta. Fonte: Para enfrentar essas limitações, pesquisadores da Inglaterra, da Suécia e dos Estados Unidos testaram a segurança do transplante, no cérebro, de neurônios produtores de dopamina, derivados de células-tronco embrionárias. Como ainda é um estudo inicial, a pesquisa, publicada na revista Nature Medicine e apresentada ontem no congresso da reunião anual da Sociedade Internacional para Pesquisa com Células-Tronco, em Montreal, no Canadá, foi realizada com apenas oito pacientes, acompanhados durante um ano. Segundo os cientistas, o procedimento mostrou-se viável, abrindo caminho para investigações com um número maior de pessoas. 

Marco

“A possibilidade de substituir os neurônios dopaminérgicos perdidos na doença de Parkinson tem sido um objetivo de longa data na área”, disse Malin Parmar, professora de neurociência celular na Universidade de Lund, na Suécia, e líder do estudo. “As descobertas representam um marco importante para as abordagens da medicina regenerativa na doença de Parkinson e apoiam o desenvolvimento clínico contínuo de terapias baseadas em células-tronco.” 

No estudo, oito pacientes da doença neurodegenerativa receberam o produto celular transplantado em duas doses diferentes, seguido por 12 meses de imunossupressão para prevenir a rejeição do enxerto. Sete participantes completaram o acompanhamento e um morreu devido a uma infecção pulmonar não diretamente relacionada ao procedimento. Segundo os autores, o processo cirúrgico foi bem tolerado, sem efeitos colaterais importantes. 

Exames de imagem utilizando um marcador da produção de dopamina mostraram aumento da atividade justamente nas regiões onde as células haviam sido implantadas, especialmente entre os pacientes que receberam a dose mais elevada do enxerto. Para os pesquisadores, isso indica que parte das células transplantadas sobreviveu e começou a funcionar.  

Sintomas

Em relação aos sintomas, os resultados foram mais modestos. Alguns pacientes apresentaram melhora da função motora, outros permaneceram estáveis e a maioria conseguiu reduzir a dose diária de medicamentos antiparkinsonianos. Seis dos sete voluntários acompanhados durante um ano diminuíram a quantidade de remédios utilizada.

“Esperamos que esse seja o início de um novo e empolgante programa que poderá, em última análise, beneficiar toda a comunidade de pacientes com Parkinson”, afirmou, em nota, Roger Barker, professor de neurociência clínica da Universidade de Cambridge, líder clínico e investigador principal clínico no centro do Reino Unido.  

Hoje, estima-se que mais de 8,5 milhões de pessoas vivam com Parkinson no mundo, número que pode ultrapassar 12 milhões até 2040. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), trata-se da doença neurológica que mais cresce em prevalência e incapacidade nas últimas décadas. No Brasil, há cerca de meio milhão de pacientes diagnosticados, com cerca de 36 mil novos casos anualmente. 

Embriões

Embora no estudo os testes tenham sido feitos com células-tronco de embriões humanos, os autores acreditam que futuramente será possível utilizar estruturas retiradas da pele ou do sangue do próprio paciente e reprogramadas para se especializaram na produção de dopamina. Além do trabalho descrito ontem, há equipes nos Estados Unidos, no Japão e na Coreia do Sul trabalhando com diferentes tipos celulares para se especializarem em neurônios dopaminérgicos. 

 “O maior desafio para a terapia celular autóloga (que usa células do próprio paciente) tem sido o desenvolvimento de métodos confiáveis para qualificar as células de cada paciente para o tratamento”, explica Jeanne Loring, pesquisadora do Scripps Research, nos Estados Unidos. Segundo a pesquisadora, abordagens de análise genômica que identificam possíveis mutações futuras têm sido aplicadas para tornar o procedimento cada vez mais personalizado.

O novo estudo, porém, é preliminar e há um longo caminho para confirmar as descobertas, alertam especialistas. “Apesar de a pesquisa trazer esperança, a gente ainda está longe de falar que isso é uma terapia que vai ser aplicada na prática clínica. Ainda há várias etapas, pois esses primeiros estudos estão na fase de avaliar a segurança do tratamento, ou seja, para avaliar se essas células-tronco não serão transformadas em células malignas e tumorais. Essa é uma das principais preocupações, além de complicações a longo prazo, que podem até piorar os sintomas da doença de Parkinson”, observa a médica neurologista Luciana Mendonça Barbosa, professora da Universidade Católica de Brasília (UCB).

A docente lembra que há outros dois estudos preliminares sobre o transplante de células dopaminérgicas que demonstraram a segurança. “Esse terceiro mostra que o tratamento, de fato, é seguro ao longo de um ano. Os cientistas vão acompanhar os pacientes por mais três anos, então teremos mais dados sobre ele”, diz. 

Mesmo com as limitações da fase atual, Jeanne Loring diz que está otimista. “Sabemos há décadas que o transplante de neurônios dopaminérgicos jovens pode reverter os sintomas da doença de Parkinson quando as células apropriadas são utilizadas. Se essas descobertas se confirmarem ao longo do tempo, esperamos observar melhorias significativas na qualidade de vida, que continuarão a aumentar à medida que as células transplantadas amadurecem”, explica. 

Palavra de especialista

O estudo representa um grande avanço em relação à possibilidade de se implantar células-tronco do próprio paciente no cérebro, com segurança. O fato de os cientistas terem demonstrado que essas células-tronco sobreviveram é muito interessante. Elas não só sobreviveram, mas realmente se mostraram funcionais: conseguiram produzir dopamina sem complicações, como hemorragias e formação de tumores. Porém, na prática, ainda não é algo com utilidade clínica imediata — até agora, o objetivo era demonstrar a segurança. Pode ser que, na continuidade desse estudo, descubram-se maneiras de obter uma eficácia clínica maior. A ciência tem vários desafios na evolução desse tipo de pesquisa. O primeiro foi provar que é possível diferenciar uma célula-tronco de um paciente para que ela produza dopamina e implantá-la no cérebro com segurança. O próximo desafio é comprovar essa segurança com um número maior de pacientes e entender se haverá um benefício clínico que justifique a complexidade do procedimento. 

Bruno Brujaili, neurocirugião do Hospital Sírio-Libanês de São Paulo, especialista em doença de Parkinson 

Duas perguntas para

Carlos Uribe, neurologista do Hospital Brasília, da Rede Américas 

O estudo representa uma mudança de paradigma no tratamento do Parkinson?

Sim, é uma possibilidade. Atualmente, o tratamento de sintomas motores e não motores para a doença de Parkinson é de reposição, seja de dopamina ou de outros neurotransmissores que podem estar alterados no cérebro do paciente. No caso dos motores, os sintomas são tratados com a reposição da dopamina, que vai agir exatamente nessa via nigroestretal (feixe de neurônios dopaminérgicos que conecta a substância negra ao corpo estriado) que está deficiente e que provoca os sintomas de rigidez, tremor e lentidão de movimentos. Esse estudo, que é ainda preliminar, está na fase 1 e 2, em humanos, ainda precisa ser confirmado com pesquisas mais abrangentes. Mas realmente o que foi descrito é uma nova estratégia de tratamento. Se isso for confirmado em estudos maiores, os pacientes precisarão de doses menores de dopamina para atingir o mesmo efeito de melhora nos sintomas, comparado aos medicamentos atuais. 

Quais são os principais desafios científicos antes que uma terapia celular como essa possa ser oferecida na prática clínica?

Para chegar até a prática clínica, ainda há um caminho longo a ser percorrido, mas o primeiro passo foi dado, realmente os resultados são animadores e agora deve ser confirmado em populações maiores, além de ser controlado com placebo. Quando se comparar o tratamento descrito no estudo com um procedimento que não coloque as células produtoras de dopamina no cérebro, ou que implante outro tipo de celular que não produz a substância, aí vai se confirmar se realmente a intervenção que está sendo feita é o que provoca a melhora sintomática desses pacientes. Isso deve levar vários anos ainda, mais de cinco, pelo menos, para a gente conseguir chegar numa resposta. Fonte: correiobraziliense.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Doença de Parkinson, Avanço em Neurotecnologia: Implante Cerebral e IA Permitem Andar Novamente

160626 - Uma grande inovação em neurotecnologia e inteligência artificial está mudando a abordagem para o tratamento da doença de Parkinson.

De acordo com um estudo publicado na revista científica Nature Medicine, 40 pessoas com Parkinson conseguiram andar sem dificuldade graças a um chip implantado em seus cérebros e ao uso de sistemas avançados de IA. A pesquisa foi conduzida pela EPFL e pelo Hospital Universitário de Lausanne, coordenada pelos pesquisadores Jocelyne Bloch e Eduardo Moraud. Ao analisar dados cerebrais de 40 pacientes, a equipe desenvolveu modelos de IA capazes de decodificar diretamente a atividade cerebral e interpretar os movimentos pretendidos pelo paciente. Esses sinais são então usados ​​para ajustar a estimulação elétrica em tempo real, permitindo que os eletrodos implantados se ajustem em segundos enquanto a pessoa caminha. Isso representa um avanço significativo em comparação com as técnicas tradicionais. A estimulação cerebral profunda (ECP) tem sido usada há mais de 30 anos para tratar sintomas como rigidez e tremor associados à doença de Parkinson. No entanto, sua eficácia na melhora da marcha sempre foi limitada. A principal razão é que os dispositivos tradicionais fornecem impulsos elétricos contínuos e invariáveis, não conseguindo se adaptar às necessidades reais do paciente durante o movimento. A integração de microchips cerebrais e inteligência artificial representa, portanto, um potencial ponto de virada no tratamento de doenças. Fonte: ilgazzettino.