Ilustração destacando
o papel da dopamina no cérebro, com foco no movimento e na doença
de Parkinson. [Imagem: Marcelo D.
Mendonça et al. - 10.1016/j.cub.2024.01.067]
27/02/2024 - Dopamina e
movimento
A dopamina, um
mensageiro químico atuante no cérebro, é sobretudo conhecida pelo
seu papel no modo como sentimos prazer e recompensa. No entanto, uma
nova pesquisa da Fundação Champalimaud (Portugal) está chamando a
atenção para o envolvimento crítico da dopamina no movimento, com
implicações para a compreensão das funções motoras e do
tratamento dos sintomas da doença de Parkinson.
Pense no ato de
caminhar: É algo que a maioria das pessoas fisicamente aptas faz sem
pensar. No entanto, trata-se na verdade de um processo complexo que
envolve vários sistemas neurológicos e fisiológicos. A doença de
Parkinson, por exemplo, é uma doença em que o cérebro perde
lentamente células específicas, chamadas neurônios dopaminérgicos,
o que resulta numa diminuição da força e da velocidade dos
movimentos.
No entanto, há outro
aspecto importante que também é afetado: A duração das ações.
Uma pessoa com Parkinson pode não só mover-se mais lentamente, como
também dar menos passos consecutivos antes de se imobilizar, no
chamado travamento da marcha. O novo estudo mostra que os sinais
dopaminérgicos afetam diretamente a duração das sequências de
movimentos, o que nos aproxima um pouco mais da descoberta de novos
alvos terapêuticos para melhorar a função motora na doença de
Parkinson.
"A dopamina está
intimamente associada à recompensa e ao prazer, sendo muitas vezes
referida como o neurotransmissor do bem-estar," salienta o
pesquisador Marcelo Mendonça. "Mas, para os indivíduos com
Parkinson, que têm uma deficiência de dopamina, são normalmente as
perturbações do movimento que mais afetam a sua qualidade de vida.
Um aspecto que sempre nos interessou foi o conceito de lateralização.
Na doença de Parkinson, os sintomas manifestam-se de forma
assimétrica, começando frequentemente num lado do corpo antes de se
declarar no outro. Com este estudo, quisemos explorar a teoria de que
as células dopaminérgicas não se limitam a motivar-nos para o
movimento, mas que também reforçam, especificamente, os movimentos
do lado oposto do nosso corpo".
Ação da dopamina
sobre o movimento ajuda a compreender Parkinson
É recente a descoberta
de que o neurotransmissor dopamina controla o movimento. [Imagem: Maite
Azcorra/Zachary Gaertner/Northwestern University]
Lateralidade
Foram duas descobertas
marcantes, ambas mediadas pela dopamina: A primeira é que na verdade
há dois tipos de neurônios dopaminérgicos misturados na mesma zona
do cérebro.
E a ação de cada um
deles é diferente: "Alguns neurônios ficavam ativos quando o
camundongo estava prestes a mover-se, enquanto outros se iluminavam
quando o camundongo recebia uma recompensa. Mas o que realmente nos
chamou a atenção foi a forma como estes neurônios reagiam
consoante a pata que o animal usava," contou Marcelo.
Em experimentos em
animais, a equipe demonstrou que neurônios ativados pelo movimento
se iluminavam mais quando os camundongos usavam a pata oposta ao lado
do cérebro que estava sendo observado. Por exemplo, se o lado
direito do cérebro estivesse sendo observado, os neurônios desse
lado ficavam mais ativos quando o animal usava a pata esquerda, e
vice-versa. Numa observação mais aprofundada, os cientistas
descobriram então que a atividade desses neurônios relacionados com
o movimento não só assinalava o início de um movimento, como
também parecia codificar, ou representar, a duração das sequências
de movimento - o animal tinha que pressionar uma alavanca para
receber uma recompensa.
"Quanto mais o
camundongo estivesse disposto a pressionar a alavanca com a pata
oposta ao lado do cérebro que estávamos observando, mais ativos se
tornavam os neurônios. Por exemplo, os neurônios do lado direito do
cérebro ficavam mais excitados quando o camundongo usava a pata
esquerda para pressionar a alavanca com mais frequência. Mas, quando
o camundongo pressionava mais a alavanca com a pata direita, estes
neurônios não apresentavam o mesmo incremento de excitação. Em
outras palavras, estes neurônios não 'ligavam' apenas ao fato de o
camundongo se mover ou não, mas também à quantidade de movimento e
ao lado do corpo que se movia," explicou o pesquisador.
Ação da dopamina
sobre o movimento ajuda a compreender Parkinson
Alguns cientistas já
defendem que Parkinson não é uma doença única, mas duas doenças
com sintomas diferentes. [Imagem: Gerd
Altmann/Pixabay]
Perda de movimento
Para estudar a forma
como a perda de dopamina afeta o movimento, os pesquisadores
utilizaram uma neurotoxina que reduz seletivamente as células
produtoras de dopamina em um dos lados do cérebro. Este método
simula doenças como o Parkinson, em que os níveis de dopamina
diminuem e o movimento se torna difícil.
A conclusão é que a
redução da dopamina altera a forma como os camundongos pressionavam
a alavanca com cada pata: A redução de dopamina em um dos lados
levava a menos pressões de alavanca com a pata do lado oposto,
enquanto a pata do mesmo lado não era afetada. Este resultado
corrobora a influência lateralizada da dopamina sobre o movimento.
A expectativa da equipe
é que suas descobertas sirvam de suporte para as pesquisas
envolvendo os problemas de movimento na doença de Parkinson.
"Os diferentes
sintomas observados nos doentes com doença de Parkinson poderão
talvez estar relacionados com quais os neurônios dopaminérgicos que
foram perdidos - por exemplo, os mais ligados ao movimento ou à
recompensa. Isto poderia, potencialmente, permitir reforçar as
estratégias de gestão da doença mais adaptadas ao tipo de
neurônios dopaminérgicos perdidos, em especial porque sabemos agora
que existem diferentes tipos de neurônios dopaminérgicos
geneticamente definidos no cérebro," disse o professor Rui
Costa. Fonte: Diário da Saúde.